Tempo de leitura: 15 min · Publicado em 05/09/2026
Sim: ameaçar alguém para divulgar imagens ou vídeos íntimos — sejam eles reais ou fabricados por inteligência artificial (deepfake) — é crime no Brasil, e a vítima tem à disposição instrumentos penais e cíveis para responsabilizar o autor, retirar o conteúdo de circulação e buscar indenização, independentemente de o material ser genuíno ou forjado digitalmente. Um mesmo episódio de “sextorção” pode configurar mais de um crime ao mesmo tempo, e a plataforma que hospeda o conteúdo também pode responder se não agir depois de notificada. A seguir, explicamos como a legislação brasileira trata cada uma dessas situações e quais passos a vítima deve seguir.
O termo vem do inglês sextortion e descreve uma prática que cresceu de forma expressiva no Brasil e no mundo, atingindo adultos e adolescentes por igual. Hoje ela se apresenta em duas frentes distintas: a exposição de imagens genuínas, obtidas por engano, invasão de dispositivos ou durante um relacionamento, e a criação de imagens falsas por inteligência artificial, em que o rosto da vítima é inserido digitalmente em cenas que nunca existiram. Este artigo trata dos caminhos jurídicos disponíveis em cada uma dessas situações, sem entrar em detalhes do conteúdo em si.
O que caracteriza juridicamente a sextorção
Do ponto de vista jurídico, a sextorção normalmente reúne dois elementos: a posse — real ou apenas alegada — de material íntimo da vítima, e uma ameaça de divulgação condicionada a alguma exigência, quase sempre financeira. Essa combinação aproxima a conduta do crime de extorsão, que pune quem constrange outra pessoa, mediante grave ameaça, a fazer, tolerar ou deixar de fazer algo com o objetivo de obter vantagem econômica indevida. A pena costuma variar entre 4 e 10 anos de reclusão, além de multa, podendo ser ainda mais severa — chegando a até 12 anos — quando a vítima também tem sua liberdade de locomoção ou de comunicação restringida como forma de pressão, cenário que se aproxima do que a lei trata como sequestro relâmpago.
Mesmo quando não há exigência de dinheiro, mas apenas a intimidação em si — por exemplo, quando o objetivo do agressor é forçar a vítima a manter contato, a enviar mais imagens ou a permanecer em silêncio sobre outro assunto —, a conduta pode configurar, isoladamente, o crime de ameaça, tratado com seriedade pela legislação penal brasileira ainda que sua pena seja mais branda que a da extorsão.
Como os golpistas conseguem as imagens usadas na ameaça
As imagens ou vídeos utilizados na ameaça costumam ter uma entre poucas origens. Em muitos casos, o material é genuíno e foi obtido por meio de invasão de dispositivos ou de contas de armazenamento em nuvem — prática que guarda semelhança com outras fraudes de acesso remoto não autorizado a computadores e celulares, como as descritas no golpe do falso suporte técnico com acesso remoto ao computador da vítima. Em outros casos, o material foi obtido por engenharia social: o golpista finge interesse romântico, constrói uma relação de confiança ao longo de dias ou semanas — muitas vezes por meio de aplicativos de relacionamento ou redes sociais — e induz a vítima a enviar fotos ou participar de videochamadas íntimas que, sem o conhecimento dela, são gravadas. Esse padrão tem semelhança com o funcionamento de outras fraudes ligadas a perfis falsos em aplicativos de relacionamento e ao golpe do amor virtual, em que a identidade do golpista é construída artificialmente só para ganhar a confiança de quem está do outro lado. Há ainda os casos em que a imagem é inteiramente fabricada por inteligência artificial a partir de fotos comuns retiradas de redes sociais, sem que a vítima jamais tenha produzido ou compartilhado qualquer conteúdo sensível.
Imagem real versus imagem fabricada por deepfake: a diferença importa?
Um ponto que gera dúvidas frequentes é se a ameaça baseada em uma imagem falsa, criada por inteligência artificial, tem o mesmo peso jurídico de uma ameaça baseada em imagem real. A resposta, na prática, é sim — com nuances:
- Imagem real obtida por invasão de dispositivos, acesso não autorizado a nuvens de armazenamento, engenharia social ou compartilhada originalmente em contexto de confiança e depois usada de forma abusiva: a divulgação, ou a simples ameaça de divulgar, já configura ilícito penal específico, além da extorsão.
- Imagem ou vídeo fabricado por deepfake: mesmo sendo “falso” no sentido de não retratar um fato real, o conteúdo é apto a produzir o mesmo dano à honra, à imagem e à intimidade da vítima — e, por isso, tribunais e legislação recente tratam a divulgação de cenas de sexo, nudez ou pornografia manipuladas com a mesma gravidade da divulgação de imagem autêntica. O fato de a cena não ter ocorrido de verdade não afasta o crime nem a responsabilidade civil, pois o bem jurídico protegido é a dignidade e a integridade psicológica da vítima, atingidas independentemente da veracidade técnica da imagem.
Seu caso envolve uma situação semelhante?
Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.
Essa equiparação de tratamento é relevante porque criminosos têm utilizado ferramentas de inteligência artificial generativa para criar imagens íntimas fictícias de uma pessoa a partir de fotos comuns retiradas de redes sociais, sem que a vítima jamais tenha produzido ou compartilhado qualquer conteúdo sensível. Nesses casos, a ausência de um “vazamento real” não torna a conduta menos grave nem impede a busca por reparação.
Além da extorsão: a divulgação de imagens íntimas também é crime autônomo
Além da extorsão e da ameaça, divulgar — ou mesmo ameaçar divulgar — imagens de nudez, sexo ou pornografia sem o consentimento da pessoa retratada é, desde 2018, crime autônomo na legislação brasileira, com pena de reclusão que pode ir de 1 a 5 anos. A pena aumenta de forma significativa quando o autor manteve ou mantém relação afetiva com a vítima, ou quando agiu por vingança ou humilhação — cenário frequente nos casos de sextorção motivados pelo fim de um relacionamento ou pela recusa da vítima em ceder à exigência do golpista.
Na prática, um mesmo episódio de sextorção pode configurar mais de um crime ao mesmo tempo — extorsão, ameaça e divulgação de cena íntima —, cabendo à autoridade policial e ao Ministério Público, com o apoio técnico de um advogado, qualificar corretamente a conduta a partir das provas reunidas: prints de conversa, comprovantes de pagamento exigido, metadados do material e outros registros digitais. A forma como essas provas são reunidas e preservadas costuma ser decisiva, de maneira parecida com o que ocorre em disputas judiciais que dependem de imagens digitais usadas como prova em processo judicial, em que a origem do material e a cadeia de custódia precisam ser demonstradas com clareza.
Como retirar o conteúdo do ar: o papel do Marco Civil da Internet
Além da esfera penal, a vítima conta com um instrumento cível importante: a regra do Marco Civil da Internet voltada especificamente à retirada de conteúdo íntimo do ar. Diferentemente do regime geral dessa lei — que normalmente exige uma ordem judicial para responsabilizar a plataforma por conteúdo publicado por terceiros —, no caso de imagens ou vídeos com cenas de nudez ou de atos sexuais a plataforma pode ser diretamente responsabilizada se, após ser notificada extrajudicialmente pela própria vítima ou por seu advogado — com informações que permitam identificar especificamente o material apontado —, não agir de forma diligente para retirar o conteúdo do ar.
Isso significa, na prática, que a vítima ou seu advogado pode notificar diretamente a rede social, o aplicativo de mensagens ou o site de hospedagem, exigindo a remoção, sem precisar esperar por uma decisão judicial. Quando a plataforma não responde, se recusa a agir, ou quando é necessário identificar o autor por trás de um perfil anônimo — o que costuma exigir quebra de sigilo por ordem judicial —, a via judicial passa a ser o caminho adequado, inclusive por meio de medidas de urgência, podendo ser cumulada com pedido de reparação por danos morais. Identificar o responsável costuma ser mais simples quando o golpista já usou um perfil falso reconhecível em outras abordagens, prática também observada em golpes que usam perfis falsos de empresas e centrais de atendimento em redes sociais para ganhar a confiança da vítima antes de aplicar a fraude.
Responsabilidade civil: é possível pedir indenização por danos morais?
Sim. Independentemente da responsabilização penal do autor, a vítima de sextorção pode buscar reparação por danos morais na esfera cível, tanto contra a pessoa identificada como responsável pela ameaça quanto, em determinadas condições, contra a plataforma que se omitiu diante de notificação de remoção. O valor da indenização varia conforme a extensão do dano, a repercussão do caso e outros elementos concretos, sendo definido caso a caso pelo juiz — não existe uma tabela fixa de valores para esse tipo de dano. A responsabilização civil não depende de a divulgação ter efetivamente ocorrido: a mera ameaça idônea a causar sofrimento psicológico e abalo à dignidade da vítima já pode ser suficiente para caracterizar o dano moral, especialmente quando documentada por prints e outros registros.
A responsabilização de plataformas por omissão diante de perfis falsos ou identidades usurpadas não é exclusividade dos casos de sextorção: raciocínio semelhante orienta discussões sobre a responsabilidade por clonagem de perfis profissionais usados para aplicar golpes contra empresas, o que reforça que provedores de aplicação têm o dever de agir diante de notificações consistentes de uso indevido de imagem ou identidade alheia.
Quando a vítima é criança ou adolescente
Quando a pessoa ameaçada ou exposta é criança ou adolescente, a situação é tratada com ainda mais rigor pelo ordenamento jurídico brasileiro. Além dos crimes já mencionados, passam a incidir também as normas de proteção específica à infância e à juventude, que preveem penas mais severas e consideram agravante o fato de a vítima ser menor de idade. Nesses casos, além do registro policial, recomenda-se buscar apoio imediato do conselho tutelar local e de canais especializados de denúncia, e os pais ou responsáveis devem preservar as evidências sem confrontar diretamente o agressor, já que a exposição da criança a mais contato com quem a ameaça pode agravar o trauma.
O que fazer diante de uma ameaça de sextorção
- Nunca pague. O pagamento raramente encerra a extorsão — na maioria dos casos documentados, o criminoso aumenta o valor exigido ou mantém a ameaça mesmo depois de receber o valor, pois o pagamento apenas confirma que a vítima está disposta a ceder. Mesmo quando o pagamento já ocorreu, casos como os de extorsão com uso de inteligência artificial e rastreio de transferências via Pix mostram que ainda é possível reunir provas úteis para identificar o autor.
- Não apague as evidências. Preserve prints de conversas, nomes de perfis, números de telefone, links e comprovantes de qualquer exigência, pois são essenciais para a investigação policial e para eventual ação judicial.
- Registre boletim de ocorrência o quanto antes, preferencialmente em delegacia especializada em crimes cibernéticos, quando disponível na localidade.
- Notifique a plataforma onde o conteúdo circula ou pode ser divulgado, solicitando a remoção com base na proteção específica que a lei confere a esse tipo de material.
- Procure orientação jurídica especializada para avaliar a tipificação penal aplicável ao caso concreto, viabilizar a notificação extrajudicial ou judicial às plataformas e buscar a devida reparação civil.
- Busque apoio psicológico. A sextorção costuma gerar intenso sofrimento emocional, e o acompanhamento profissional é importante tanto para lidar com o impacto psicológico quanto para dar suporte à vítima ao longo do processo de responsabilização do agressor.
Por que a resposta jurídica rápida é decisiva nesses casos
A sextorção — baseada em imagem real obtida de forma ardilosa ou fabricada por inteligência artificial — já é enquadrada pelo ordenamento jurídico brasileiro por meio de instrumentos penais e cíveis específicos, da extorsão à divulgação de cena íntima, passando pela responsabilização de plataformas digitais. Quanto mais cedo a vítima reúne provas, notifica as plataformas envolvidas e busca orientação jurídica, maior a chance de conter a circulação do material e de identificar o responsável antes que o dano se espalhe.
Diante de uma ameaça como essa, o caminho mais seguro não é o pagamento nem o silêncio, mas a combinação entre registro policial, preservação de evidências, notificação formal às plataformas envolvidas e acompanhamento de advogado para avaliar a tipificação penal cabível e a viabilidade de uma ação cível por danos morais. O apoio psicológico à vítima, ao longo desse processo, também é parte relevante da resposta a esse tipo de violência digital.
Seu caso envolve uma situação semelhante?
Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.
Perguntas frequentes
Devo pagar o valor exigido para evitar a divulgação das imagens?
Não é recomendável. O pagamento raramente encerra a ameaça — na maioria dos casos documentados o valor exigido aumenta ou a ameaça continua mesmo depois do pagamento. O caminho mais seguro é preservar as evidências, registrar boletim de ocorrência e buscar orientação jurídica imediatamente.
A ameaça já é crime mesmo que as imagens nunca cheguem a ser divulgadas?
Sim. A simples ameaça de divulgar o material, condicionada a uma exigência, já pode configurar extorsão ou ameaça, independentemente de o conteúdo chegar a circular publicamente.
Imagens falsas criadas por inteligência artificial (deepfake) têm o mesmo peso jurídico que imagens reais?
Em regra, sim. A lei e os tribunais têm tratado a divulgação de cenas de nudez, sexo ou pornografia manipuladas digitalmente com a mesma gravidade da divulgação de imagem autêntica, já que o dano à dignidade e à intimidade da vítima é equivalente.
É possível responsabilizar a rede social ou o aplicativo onde o conteúdo circulou?
Sim, em determinadas condições. Diferentemente da regra geral aplicável a conteúdo de terceiros, no caso de material íntimo a plataforma pode responder se, notificada extrajudicialmente com informações suficientes para localizar o conteúdo, não agir para retirá-lo do ar.
Preciso saber quem é o autor da ameaça para poder agir judicialmente?
Não necessariamente. Quando o autor usa um perfil anônimo, é possível pedir judicialmente a quebra de sigilo dos dados cadastrais e de conexão junto à plataforma para identificá-lo, ao mesmo tempo em que se busca a remoção do conteúdo.
Quanto tempo a plataforma tem para remover o conteúdo depois de notificada?
Não há um prazo legal único e fixo para todas as situações; a lei exige que a plataforma aja de forma diligente diante da notificação. Quando a demora é injustificada, isso pode ser levado ao Judiciário, inclusive por meio de medida de urgência.
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Fontes oficiais consultadas
- Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940), versão compilada — crimes de extorsão e de ameaça
- Lei nº 13.718/2018 — tipifica a divulgação de cena de estupro, de sexo ou de pornografia sem consentimento
- Lei nº 12.965/2014 — Marco Civil da Internet
- Lei nº 11.923/2009 — inclui a hipótese de restrição da liberdade da vítima como causa de aumento da extorsão
Sobre o autor

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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.
Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.
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