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Trombose ou embolia após cirurgia: quando a prevenção pode ter falhado?

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 8 min · Publicado em 14/08/2026

A cirurgia correu bem. O paciente recebeu alta, voltou para casa e, alguns dias depois, começou a sentir a panturrilha inchada e dolorida. Em outros casos o aviso é ainda mais brusco: falta de ar repentina, dor no peito, ida ao pronto-socorro. O diagnóstico vem com nome técnico — trombose venosa profunda, embolia pulmonar — e traz junto uma dúvida difícil de resolver sozinho: isso era um risco previsto do procedimento ou alguma coisa deixou de ser feita?

Resposta direta: trombose e embolia são complicações reconhecidas de procedimentos cirúrgicos e podem ocorrer mesmo quando toda a prevenção adequada foi realizada. Por isso, a análise não parte do resultado, e sim da conduta: se o risco do paciente foi avaliado antes da cirurgia, se as medidas preventivas compatíveis com esse risco foram prescritas e efetivamente aplicadas, se houve orientação na alta e com que rapidez os sintomas foram reconhecidos e tratados. Tudo isso deixa rastro documental.

Por que o resultado, sozinho, não define nada

Cirurgia, imobilidade e resposta inflamatória aumentam o risco de formação de coágulos. Esse risco é conhecido, descrito na literatura médica e informado nos termos de consentimento. A existência do evento, isoladamente, não demonstra falha. O que se examina é se o serviço de saúde tratou esse risco previsível como algo a ser prevenido ou como algo a ser ignorado.

A avaliação de risco antes da cirurgia

Antes do procedimento, espera-se uma avaliação do risco tromboembólico do paciente. Fatores como idade, obesidade, câncer, episódio anterior de trombose, uso de anticoncepcional ou terapia hormonal, tabagismo, tempo previsto de cirurgia e tipo de procedimento influenciam essa classificação.

Na apuração, a pergunta é simples: essa avaliação existe no prontuário? Quando o paciente tinha fatores de risco evidentes e não há qualquer registro de estratificação, abre-se espaço para discussão sobre a adequação da conduta preventiva.

As medidas de prevenção e o registro

A prevenção costuma combinar medidas mecânicas e medicamentosas: meias de compressão, compressor pneumático intermitente, mobilização precoce e, quando indicado, anticoagulante em dose profilática. A escolha depende do risco individual e do risco de sangramento.

O ponto relevante para a investigação não é apenas a prescrição, mas a checagem. Uma prescrição de anticoagulante sem registro de administração não demonstra que a medida foi cumprida. Anotações de enfermagem, aprazamento e checagem da prescrição são os documentos que respondem a isso.

Quando a profilaxia é suspensa

Há situações em que a anticoagulação é reduzida ou suspensa por risco de sangramento. Essa decisão é legítima, mas espera-se que esteja registrada e justificada, e que as medidas mecânicas permaneçam quando possível. A ausência de qualquer explicação para a suspensão é um dado que costuma ser examinado.

Mobilização precoce e cuidados durante a internação

Estimular o paciente a levantar e caminhar assim que sua condição permite é medida preventiva de baixo custo e comprovada utilidade. Registros de fisioterapia, evolução de enfermagem e anotações sobre deambulação ajudam a demonstrar se isso foi conduzido de forma ativa.

A orientação na alta

Boa parte dos eventos ocorre depois da alta hospitalar. Por isso, a orientação de saída tem peso: sinais de alerta, tempo de uso da profilaxia domiciliar quando indicada, retorno programado e canal de contato. Um relatório de alta genérico, sem menção a sintomas que exigem retorno imediato, é um elemento que a análise leva em conta. O tema se conecta ao que se discute em alta hospitalar precoce.

O tempo de resposta quando o sintoma aparece

Quando o paciente procura atendimento com dor e edema em membro inferior, ou com falta de ar e dor torácica após uma cirurgia recente, existe uma expectativa de investigação dirigida. O intervalo entre a chegada, a solicitação de exames e o início do tratamento costuma estar registrado com horários, o que torna essa etapa verificável.

Elemento apurado Documento que costuma responder
Se o risco foi avaliado antes da cirurgia Avaliação pré-anestésica e evolução médica
Se a profilaxia foi prescrita Prescrição médica e justificativa clínica
Se a profilaxia foi aplicada Prescrição checada e anotações de enfermagem
Se houve orientação na alta Relatório de alta e receituário
Quando os sintomas foram tratados Ficha de atendimento, exames e horários registrados

O que a documentação incompleta significa

É comum que faltem justamente os registros de checagem da profilaxia. A ausência de documento que deveria existir não favorece quem tinha o dever de produzi-lo e mantê-lo. Isso não converte automaticamente o caso em falha, mas desloca a discussão para a qualidade da assistência prestada e registrada.

Quem costuma ser examinado

A análise costuma envolver o cirurgião, o anestesista, a equipe de enfermagem e o serviço de saúde. O profissional responde pela conduta que lhe cabia; a instituição responde pela estrutura, pelos protocolos e pela atuação de seus prepostos. O recorte está detalhado em responsabilidade do médico e do hospital.

Documentos que o paciente pode reunir

Prontuário completo da internação, prescrições com checagem, avaliação pré-anestésica, descrição cirúrgica, relatório de alta, exames que confirmaram o diagnóstico, atendimentos posteriores e comprovantes de despesas. Também ajudam registros pessoais: fotos do membro afetado, datas dos sintomas e mensagens trocadas com a equipe.

Danos que costumam ser discutidos

Dependem da repercussão do evento. Podem envolver despesas de tratamento, período de afastamento, sequelas circulatórias, necessidade de anticoagulação prolongada e, nos casos graves, consequências permanentes. A demonstração exige documentação médica que descreva a evolução.

Limites desta análise

Trombose e embolia podem ocorrer em pacientes que receberam profilaxia correta e assistência adequada. Nem toda ocorrência indica falha, e a avaliação depende do risco individual, do registro das medidas adotadas e da resposta clínica. Este conteúdo é informativo e não substitui a análise individual da documentação por profissional habilitado.

Perguntas frequentes

Trombose após cirurgia sempre indica erro médico?

Não. É uma complicação conhecida e possível mesmo com prevenção adequada. A investigação examina se a prevenção compatível com o risco do paciente foi avaliada, prescrita, aplicada e registrada.

O hospital é obrigado a fornecer medicação preventiva?

A conduta preventiva depende de indicação clínica e do equilíbrio entre risco de trombose e risco de sangramento. O que se espera é que essa decisão esteja fundamentada e registrada no prontuário.

Assinei termo de consentimento mencionando o risco. Isso encerra a discussão?

Não. O termo demonstra que o risco foi informado, mas não substitui a obrigação de adotar as medidas de prevenção e de prestar assistência adequada quando o evento ocorre.

Tive embolia depois da alta. O caso ainda pode ser analisado?

Sim. A ocorrência após a alta não afasta a análise, que passa a incluir a adequação do momento da alta, as orientações fornecidas e o atendimento prestado quando o paciente retornou.

Quais provas costumam ser mais relevantes?

A prescrição checada, as anotações de enfermagem e os horários registrados no atendimento de urgência, porque permitem verificar o que foi efetivamente feito e quando.

Fontes oficiais consultadas

Este conteúdo foi elaborado com apoio nas seguintes fontes primárias:

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Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

Siga @phelipecardosoadv no Instagram →

Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

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