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Falha durante cirurgia: quando uma complicação pode indicar problema no atendimento?

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 10 min · Atualizado em 15/08/2026

A cirurgia foi apresentada como um procedimento comum. O paciente entrou no centro cirúrgico esperando alguns dias de recuperação e saiu de lá com um quadro diferente do combinado: uma lesão que não estava prevista, uma reoperação de urgência, uma sequela que ninguém explicou direito. Nos dias seguintes, vem a frase que quase todo paciente ouve: “isso é uma complicação, acontece”. E fica a dúvida que ninguém responde de forma clara: era mesmo um risco do procedimento ou alguma coisa foi feita de maneira inadequada?

Resposta direta: nem toda complicação cirúrgica indica falha no atendimento, e nem toda falha aparece rotulada como erro no prontuário. A diferença entre uma e outra não está no resultado ruim, e sim na conduta: no que foi avaliado antes, na técnica empregada, no monitoramento durante o ato e, principalmente, na rapidez com que a equipe reconheceu e tratou o problema. Essa análise depende de documentos específicos, e é por isso que a primeira providência do paciente costuma ser documental, não jurídica.

Por que uma complicação, sozinha, não define nada

A medicina trabalha com margem de incerteza. Procedimentos bem indicados, bem executados e bem acompanhados podem evoluir mal por características do próprio paciente, pela gravidade da doença de base ou por reações que não são previsíveis caso a caso. Existem taxas conhecidas de sangramento, infecção, lesão de estruturas vizinhas e trombose para praticamente toda cirurgia. Quando o desfecho está dentro dessa margem e a conduta seguiu o que se espera de um profissional prudente, o resultado ruim tende a ser lido como risco inerente.

Um bom exemplo dessa distinção aparece na cirurgia bariátrica, em que a fístula pós-operatória é complicação descrita na literatura, mas o modo como foi diagnosticada e tratada é o que se examina.

Por isso, dizer “eu tive uma complicação” não é o ponto de partida da análise. O ponto de partida é outro: essa complicação era esperada para o seu caso, foi informada antes, foi percebida a tempo e foi tratada como deveria?

O que caracteriza uma falha na assistência

A falha aparece quando a conduta se distancia do padrão técnico razoável. Não se trata de exigir perfeição nem o melhor resultado possível, e sim de verificar se foram adotados os cuidados que se esperam de um profissional atento em situação semelhante. Alguns exemplos recorrentes:

  • indicação cirúrgica sem exames que a sustentassem;
  • ausência de avaliação pré-operatória compatível com o risco do paciente;
  • técnica registrada de forma incompatível com a lesão encontrada depois;
  • sinais de alerta anotados no prontuário sem qualquer conduta correspondente;
  • demora injustificada para reoperar ou para pedir o exame que fecharia o diagnóstico;
  • alta concedida com parâmetros que já indicavam instabilidade.

O detalhe que mais pesa: o tempo de resposta

Em boa parte dos casos discutidos judicialmente, o ponto central não é o incidente em si, mas o intervalo entre o primeiro sinal de que algo estava errado e a providência efetiva. Uma perfuração percebida e corrigida no mesmo ato cirúrgico tem leitura completamente diferente de uma perfuração identificada três dias depois, após o paciente ter passado por dor persistente, febre e exames alterados sem que ninguém reavaliasse a hipótese.

É por isso que a evolução de enfermagem costuma ser tão relevante quanto a descrição cirúrgica. São os registros de horário, pressão, frequência cardíaca, dor, débito de dreno e diurese que mostram quando o quadro começou a mudar e quanto tempo demorou até alguém agir.

A descrição cirúrgica e o que ela revela

A descrição cirúrgica é o relato do que foi feito dentro da sala. Ela costuma trazer a via de acesso, os achados, as estruturas manipuladas, a técnica de sutura, os materiais utilizados, a duração e as intercorrências. Quando essa descrição é genérica, padronizada demais ou silencia sobre um evento que depois aparece em exame de imagem, esse silêncio vira, ele próprio, um elemento de análise.

Vale o mesmo raciocínio para a ficha de anestesia, que registra parâmetros minuto a minuto: queda de saturação, alterações de pressão, drogas administradas e volume infundido. Ela é frequentemente o documento mais objetivo de todo o conjunto.

Quem participou do procedimento

Cirurgia é trabalho de equipe. Cirurgião principal, auxiliares, anestesista, instrumentador e enfermagem têm atribuições distintas, e a apuração precisa separar essas esferas. Há situações em que a discussão recai sobre a organização hospitalar, não sobre a mão do cirurgião: falta de material, equipamento indisponível, contagem de compressas não realizada, ausência de vaga em terapia intensiva no pós-operatório.

Também merece atenção a hipótese de o procedimento ter sido conduzido por profissional diferente daquele que foi apresentado ao paciente na consulta, sem qualquer comunicação prévia.

Como cada cenário costuma ser examinado

Situação relatada O que costuma ser examinado
Lesão de estrutura vizinha durante o ato Descrição cirúrgica, anatomia do caso, exames prévios, se houve reconhecimento e correção imediata
Piora nas primeiras horas sem reavaliação Evolução de enfermagem, sinais vitais, prescrições, horário do chamado médico
Reoperação poucos dias depois Motivo registrado, exames que a antecederam, intervalo entre a queixa e a indicação
Sequela permanente Nexo entre o ato e a sequela, exames comparativos, relatórios de reabilitação
Falta de material ou equipamento Registros de estoque, escala, protocolos internos e checklist de segurança

O checklist de cirurgia segura

A conferência realizada antes da incisão — identificação do paciente, lado a ser operado, procedimento previsto, alergias, disponibilidade de material e contagem de instrumentais — é uma rotina de segurança consolidada nos serviços de saúde brasileiros e acompanhada pela Anvisa dentro da política de segurança do paciente. Quando essa etapa não foi cumprida ou não foi registrada, esse dado costuma ser considerado na análise do caso.

Documentos que o paciente pode reunir

Independentemente de qualquer decisão sobre discutir o caso judicialmente, reunir a documentação cedo evita perda de informação. O conjunto mais útil costuma incluir:

  • prontuário completo da internação, e não apenas o resumo de alta;
  • descrição cirúrgica e ficha de anestesia;
  • evolução médica e de enfermagem, com horários;
  • prescrições e registros de administração de medicamentos;
  • exames de imagem em arquivo digital, com os laudos;
  • termo de consentimento assinado;
  • notas fiscais, recibos e comprovantes de despesas;
  • relatórios dos profissionais que assumiram o tratamento depois.

Como pedir o prontuário

O pedido é feito por escrito ao serviço de saúde, com identificação do paciente e período da internação, e convém guardar o protocolo de entrega. As imagens de exame devem ser solicitadas em arquivo digital, porque a impressão perde informação relevante para análise técnica posterior. Quando o pedido não é atendido, a recusa em si passa a ser um dado do caso.

Registros pessoais também contam

Fotografias da evolução da ferida com data, mensagens trocadas com a equipe, receituários, atestados e anotações sobre datas de consulta ajudam a reconstruir a linha do tempo. Esse material não substitui o prontuário, mas costuma esclarecer pontos que o prontuário não registra, como o que foi dito ao paciente em cada retorno.

A avaliação técnica vem antes da jurídica

Casos cirúrgicos raramente se resolvem com a leitura isolada do relato do paciente. É comum que a análise passe por profissional da mesma especialidade, que compara o que foi feito com o que era razoável fazer diante daquele quadro. Em processo judicial, essa função é exercida pela perícia, e as partes podem indicar assistente técnico para acompanhar os trabalhos e formular quesitos.

Limites desta análise

Cada caso depende das provas disponíveis e das particularidades clínicas do paciente. Dois pacientes com a mesma cirurgia e a mesma complicação podem ter desfechos jurídicos diferentes conforme o que estiver registrado, a condição prévia de saúde e a conduta adotada depois do incidente. Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a avaliação individual do prontuário por profissional habilitado.

Perguntas frequentes

Complicação e erro médico são a mesma coisa?

Não. Complicação é evento adverso que pode ocorrer mesmo com conduta adequada. A discussão sobre falha surge quando a conduta se afasta do padrão técnico esperado, seja na indicação, na execução ou no acompanhamento.

Assinei o termo de consentimento. Isso encerra a discussão?

Não encerra. O termo demonstra que riscos foram informados, o que é relevante, mas não valida conduta inadequada nem falha no acompanhamento posterior ao procedimento.

O hospital pode negar a entrega do prontuário?

O prontuário é do paciente, ainda que a guarda física seja do serviço de saúde. A recusa injustificada em fornecer cópia contraria as normas aplicáveis e costuma ser considerada na análise do caso.

Preciso de um laudo de outro médico antes de procurar orientação jurídica?

Não é obrigatório, mas relatórios de profissionais que assumiram o tratamento depois ajudam bastante a compreender a extensão do dano e a evolução do quadro.

Quanto tempo tenho para discutir o caso?

O prazo varia conforme a relação jurídica envolvida e o momento em que o dano se tornou conhecido. Por isso a orientação prática é reunir a documentação assim que surgir a dúvida, sem aguardar a consolidação da sequela.

Fontes oficiais consultadas

Este conteúdo foi elaborado com apoio nas seguintes fontes primárias:

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Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

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