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Escara durante internação: quando a lesão por pressão pode indicar falha hospitalar?

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 6 min · Publicado em 15/08/2026

A internação começou por outro motivo. Semanas depois, ao trocar o paciente de posição, a família viu a ferida nas costas — vermelha primeiro, aberta depois, funda por fim. Ninguém tinha comentado nada. E a pergunta que surgiu foi simples: isso apareceu porque a doença era grave, ou porque faltou cuidado?

Resposta direta: a lesão por pressão, popularmente chamada de escara, é reconhecida como evento em boa parte evitável, e existe um conjunto de medidas preventivas esperadas de serviços de saúde. A apuração examina se o risco foi avaliado na admissão e reavaliado periodicamente, se a mudança de decúbito e os demais cuidados foram executados e registrados, e se a lesão foi identificada precocemente e tratada. O que se discute é a prevenção documentada, não apenas a existência da ferida.

Como a lesão por pressão se forma

Ela decorre da pressão prolongada sobre uma área do corpo, geralmente em proeminências ósseas — sacro, calcâneos, trocânteres, occipital. A pressão reduz o fluxo de sangue no tecido, que sofre e morre. Fatores como imobilidade, umidade, desnutrição, baixa perfusão e uso de dispositivos aumentam o risco. Compreender esse mecanismo ajuda a entender por que a prevenção é essencialmente uma rotina de cuidado.

Avaliação de risco e reavaliação

Serviços utilizam escalas padronizadas para classificar o risco de cada paciente na admissão e ao longo da internação. O registro dessa avaliação, com a pontuação e a data, é o primeiro documento verificado. Quando ele não existe, ou existe apenas na entrada e nunca mais é repetido em uma internação longa, há uma lacuna objetiva.

As medidas preventivas esperadas

Mudança de posição em intervalos definidos, uso de superfícies de redistribuição de pressão, proteção de calcâneos, manejo da umidade e da incontinência, hidratação e cuidado da pele, avaliação nutricional e inspeção diária da pele. Cada uma dessas medidas deveria aparecer nas anotações de enfermagem. A ausência sistemática desses registros ao longo de semanas costuma ser o centro da discussão.

Estágios da lesão e o tempo de evolução

As lesões são classificadas por estágios, do eritema que não embranquece até a perda tecidual profunda com exposição de estruturas. Uma lesão em estágio avançado, descoberta sem qualquer registro anterior de lesão inicial, sugere que a inspeção diária pode não ter ocorrido. É um dado técnico frequentemente utilizado para reconstruir a linha do tempo.

Lesões relacionadas a dispositivos

Máscaras de ventilação, sondas, cateteres, colares e imobilizadores também produzem lesões por pressão. Elas exigem cuidados próprios de proteção e revezamento de pontos de apoio. Quando a lesão surge exatamente no local de um dispositivo, a apuração se volta para a rotina de manejo daquele equipamento.

Quando a lesão é considerada inevitável

Existem situações em que a lesão ocorre apesar de cuidado adequado: instabilidade hemodinâmica que impede a mudança de posição, uso de drogas vasoativas em dose alta, falência de múltiplos órgãos, fase final de vida. Nesses casos, espera-se que a impossibilidade esteja registrada e justificada no prontuário. Prontuário que documenta a limitação clínica tem peso muito diferente de prontuário silente.

Infecção e agravamento

A lesão pode evoluir com infecção, osteomielite, necessidade de desbridamento cirúrgico e internação prolongada. Esses desdobramentos ampliam o dano discutido e trazem uma segunda frente de análise, relativa ao tratamento da ferida depois de identificada.

Internação domiciliar e instituições de longa permanência

A mesma lógica se aplica a serviços de atenção domiciliar e a instituições de longa permanência. O que muda é quem tinha o dever de cuidado no período em que a lesão se formou, e isso costuma ser definido pelos registros de cada prestador e pelas datas de transferência.

Documentos que ajudam a reconstruir o caso

Prontuário completo com anotações diárias de enfermagem, escala de risco e suas reavaliações, registros de mudança de decúbito, evolução da ferida com estadiamento e fotografias, prescrições de curativo, avaliação nutricional, pareceres de estomaterapia e notificação interna do evento. Fotografias feitas pela família, com data, também ajudam a fixar a evolução.

Quem costuma ser examinado

A discussão recai principalmente sobre a instituição, pela organização do cuidado e pela atuação da equipe de enfermagem, e pode alcançar profissionais específicos conforme a conduta. Em serviços públicos, aplica-se o regime próprio de responsabilidade estatal.

Limites desta análise

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação individual. A conclusão sobre falha e reparação depende dos registros, do estado clínico do paciente e da prova técnica sobre a evitabilidade da lesão naquele contexto.

Perguntas frequentes

Escara em paciente internado é sempre negligência?

Não. Existem lesões consideradas inevitáveis em pacientes graves. O que se examina é a existência e o registro das medidas preventivas compatíveis com o risco.

A família pode cobrar mudança de posição a cada duas horas?

O intervalo é definido pela avaliação de risco e pela condição clínica. O ponto central é que a rotina adotada esteja registrada e seja compatível com o risco identificado.

Posso fotografar a ferida do meu familiar?

Sim. Fotografias datadas ajudam a demonstrar a evolução, e é recomendável registrar também a solicitação de avaliação feita à equipe.

A lesão apareceu em casa, depois da alta. Muda alguma coisa?

Muda o foco. Será preciso identificar em que período a lesão se formou e quem tinha o dever de cuidado naquele intervalo, o que se faz pelos registros.

Quanto tempo tenho para discutir o caso?

O prazo varia conforme a natureza do serviço e o momento em que se teve ciência do dano e de sua autoria. Reunir prontuário e fotografias cedo evita a perda de prova.

Fontes oficiais consultadas

Este conteúdo foi elaborado com apoio nas seguintes fontes primárias:

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Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

Siga @phelipecardosoadv no Instagram →

Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

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