Tempo de leitura: 13 min · Atualizado em 11/08/2026
O sucesso da busca pelo ressarcimento de valores subtraídos em golpes e ilícitos financeiros depende diretamente do conjunto probatório reunido pelo correntista. Quando ocorre uma movimentação não autorizada, a apresentação organizada de documentos, comprovantes e registros de comunicação é o elemento determinante para demonstrar a ocorrência da fraude, a tempestividade da notificação e a falha na segurança da instituição financeira.
Embora o Código de Defesa do Consumidor preveja mecanismos de proteção e facilitação da defesa da vítima, a preservação correta de evidências técnicas e digitais evita que o banco alegue ausência de comprovação ou culpa exclusiva do usuário. A seguir, apresentamos o guia prático de produção e conservação de provas em fraudes bancárias.
Por que a produção e preservação de provas é essencial?
Resposta direta: preservar provas documentais e digitais é o que comprova o ilícito, demonstra a cronologia dos fatos e evidencia a falha de segurança do banco.
Elementos probatórios sólidos impedem que as instituições financeiras aleguem culpa exclusiva da vítima ou desconhecimento da fraude.
A relação entre cliente e banco é qualificada como de consumo, sujeita às disposições da Súmula 297 do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Com base no Artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor (CDC), a responsabilidade do fornecedor de serviços é objetiva, cabendo-lhe responder pelos danos decorrentes de defeitos na prestação do serviço e na segurança das operações.
Além disso, a Súmula 479 do STJ consolida que os prejuízos gerados por fraudes praticadas por terceiros no âmbito de operações bancárias configuram fortuito interno, inerente ao risco da atividade. Contudo, para que a tese jurídica seja aplicada de forma consistente, o correntista deve fornecer o suporte documental que demonstre como o evento danoso se estruturou.
Quais provas documentais e digitais você deve reunir?
Resposta direta: Você deve reunir o comprovante da transação com o código End-to-End, extratos bancários anteriores e posteriores ao fato, protocolos de atendimento junto ao banco, Boletim de Ocorrência, registros de conversas em aplicativos de mensagem, histórico de chamadas e cópia de reclamações registradas em órgãos oficiais.
Cada elemento probatório desempenha um papel específico na demonstração do direito. Abaixo, detalhamos como obter, preservar e utilizar cada um desses documentos:
1. Comprovante de transferência ou Pix com identificador End-to-End (E2E)
O comprovante de transferência via Pix contém uma chave alfanumérica única conhecida como código End-to-End (E2E ID). Esse identificador permite o rastreamento exato da operação no sistema do Banco Central, identificando a instituição de origem, a instituição receptora, a agência, a conta e o CPF ou CNPJ do destinatário.
- Como obter: Faça o download do comprovante em formato PDF diretamente pelo aplicativo ou internet banking.
- Como preservar: Salve o arquivo original sem realizar capturas de tela cortadas ou edições. Mantenha o arquivo digital armazenado em local seguro.
- Importância jurídica: Permite individualizar a conta receptora e viabilizar os procedimentos previstos na Resolução do Banco Central que instituiu o Mecanismo Especial de Devolução (MED), cujo prazo máximo para notificação de infração é de até 80 dias contados da transação.
2. Extrato bancário completo do período
O extrato bancário demonstrativo deve abranger o período anterior à fraude (de 30 a 60 dias) e o período posterior imediato ao evento ilícito.
- Como obter: Emita o extrato consolidado em formato PDF pelo sistema do banco.
- Como preservar: Evite rasurar ou ocultar outras movimentações, garantindo a integridade do documento.
- Importância jurídica: O histórico serve para demonstrar o perfil habitual de consumo e movimentação do correntista. Transações atípicas, concentradas em curto espaço de tempo ou com valores muito acima do padrão, evidenciam a falha do banco em acionar seus gatilhos preventivos de segurança.
3. Protocolos de atendimento e notificações ao banco
Os números de protocolo gerados em ligações para o SAC, Ouvidoria ou conversas em chat oficial comprovam que a instituição foi informada sobre o fato e qual foi o horário exato da notificação.
- Como obter: Anote dia, horário, nome do atendente e o número do protocolo a cada contato. Solicite o envio do histórico por e-mail ou via chat.
- Como preservar: Mantenha uma planilha ou anotação cronológica com todos os números de protocolo e cópias de e-mails trocados com o suporte.
- Importância jurídica: Demonstra a boa-fé do consumidor e a eventual demora injustificada ou recusa da instituição em adotar medidas de contenção, como o bloqueio cautelar do saldo.
4. Boletim de Ocorrência (B.O.)
O registro formal da ocorrência perante a autoridade policial detalha a dinâmica da fraude, informando dados de terceiros e valores transferidos.
- Como obter: Registre a ocorrência presencialmente em uma delegacia da Polícia Civil ou por meio da Delegacia Virtual do seu Estado.
- Como preservar: Baixe a cópia do B.O. assinado digitalmente ou mantenha a via impressa com o carimbo do órgão policial.
- Importância jurídica: Trata-se de documento público que formaliza a notícia do crime, servindo de elemento de corroboração da narrativa apresentada ao banco e ao Judiciário.
5. Registrar e exportar conversas de WhatsApp, e-mails e SMS
Mensagens trocadas com golpistas ou falsas centrais telefônicas contêm os elementos de indução em erro e engenharia social utilizados no ilícito.
- Como obter: Utilize a função “Exportar conversa” no WhatsApp (com mídia, quando possível) e salve e-mails recebidos com os cabeçalhos completos.
- Como preservar: Além da exportação de texto, faça capturas de tela (prints) onde apareçam visíveis o número de telefone completo (com DDD), data e horário. Em casos de valores elevados, a realização de uma ata notarial em Cartório de Notas confere fé pública ao conteúdo digital.
- Importância jurídica: Evidencia o modus operandi dos criminosos e permite avaliar a ocorrência de situações tratadas no golpe da falsa central de atendimento e na abordagem de engenharia social vista no golpe do falso funcionário do banco.
6. Registro de chamadas telefônicas e gravações de áudio
O histórico de chamadas recebidas comprova o contato oriundo de números mascarados ou de centrais falsas.
- Como obter: Acesse o histórico de chamadas do aparelho celular ou solicite o detalhamento de chamadas recebidas junto à sua operadora de telefonia.
- Como preservar: Realize a captura de tela do histórico contendo data, horário e duração da chamada. Caso possua gravações autorizadas da ligação, salve o arquivo de áudio original.
- Importância jurídica: Auxilia no enquadramento do descumprimento do dever de proteção de dados e na averiguação de vazamentos de informações confidenciais do cliente.
7. Reclamações no Banco Central e Consumidor.gov.br
O registro de demandas em plataformas de mediação governamentais obriga a instituição financeira a apresentar resposta formal fundamentada por equipes especializadas.
- Como obter: Cadastre a reclamação nos portais oficiais do Banco Central do Brasil ou do Consumidor.gov.br anexando os comprovantes e o B.O.
- Como preservar: Faça o download da reclamação e da resposta final enviada pelo banco em PDF.
- Importância jurídica: A resposta do banco nesses canais frequentemente fixa a tese administrativa da instituição, permitindo identificar se houve recusa genérica ou contradição com as normas regulatórias.
8. Evidências de invasão de dispositivo e aplicativos de acesso remoto
Em episódios nos quais o aplicativo bancário é acessado sem autorização ou há instalação de softwares maliciosos (como AnyDesk ou TeamViewer induzidos por golpistas), a prova técnica do acesso indevido é indispensável.
- Como obter: Não formate o celular imediatamente. Realize capturas de tela do histórico de aplicativos instalados, notificações de acesso e SMS de verificação de login.
- Como preservar: Se necessário, solicite um laudo técnico de assistência especializada que ateste a presença do software malicioso ou a ocorrência de acesso remoto no aparelho.
- Importância jurídica: Fundamenta situações em que a pessoa teve sua conta bancária invadida, afastando a alegação do banco de que o próprio correntista efetuou as operações em seu dispositivo habitual.
Tabela síntese de provas e prazo recomendado de guarda
Resposta direta: A organização das provas deve seguir critérios de relevância jurídica e tempo mínimo de guarda. Documentos essenciais devem ser mantidos salvos digitalmente durante todo o período do processo ou enquanto perdurar a pretensão ressarcitória.
| Tipo de Prova | Para Que Serve Juridicamente | Prazo Recomendado de Guarda |
|---|---|---|
| Comprovante com E2E / Pix | Rastrear destino do valor e fundamentar o MED (prazo de 80 dias). | Guarda permanente até a solução do caso. |
| Extrato Bancário (60 dias) | Demonstrar perfil habitual e atipicidade das movimentações. | Mínimo de 5 anos. |
| Protocolos do SAC / Ouvidoria | Comprovar notificação imediata e demonstrar boa-fé do cliente. | Mínimo de 5 anos. |
| Boletim de Ocorrência (B.O.) | Formalizar o fato perante autoridade pública e instruir a ação. | Mínimo de 5 anos. |
| Prints e Exportação de Conversas | Comprovar engenharia social, indução em erro e falsas promessas. | Mínimo de 5 anos. |
| Reclamação Bacen / Consumidor.gov | Fixar a posição formal do banco e evidenciar esgotamento administrativo. | Mínimo de 5 anos. |
A inversão do ônus da prova e a facilitação da defesa do consumidor
Resposta direta: A inversão do ônus da prova é um direito básico do consumidor que transfere para o banco o dever de demonstrar a regularidade e a segurança das transações questionadas. Esse mecanismo equilibra a disparidade técnica entre o correntista e a instituição financeira.
Com base no Artigo 6º, inciso VIII do CDC, o juiz pode determinar a inversão do ônus da prova quando for verossímil a alegação do consumidor ou quando for constatada a sua hipossuficiência técnica. Contudo, a inversão do ônus da prova não isenta totalmente o correntista de apresentar indícios mínimos do fato constituinte do seu direito.
Ao apresentar os comprovantes de transferência, os protocolos de contestação e a prova do contato com golpistas, o correntista atende ao requisito de verossimilhança. A partir desse ponto, cabe ao banco demonstrar que seus sistemas funcionavam perfeitamente e que adotou os procedimentos exigidos pelas resoluções do Banco Central, conforme tratado nas diretrizes do núcleo de apoio a vítimas de fraudes bancárias do PHC Advogados.
Caso o banco não consiga comprovar a segurança do serviço ou demonstrar que a transação estava dentro do perfil do cliente, a instituição pode ser condenada a restituir os valores e reparar eventuais danos sofridos, observadas as particularidades de casos envolvendo o reembolso do golpe do PIX e responsabilidade do banco.
Orientações para a organização do seu arquivo probatório
Resposta direta: A organização eficiente das evidências deve ser feita em formato digital, dividida em pastas cronológicas e identificada por nomes claros. Esse procedimento agiliza a análise jurídica e evita a perda de documentos durante o trâmite do pedido.
- Crie uma pasta digital específica: Reúna todos os arquivos em uma única pasta nomeada no seu computador ou serviço de nuvem.
- Nomeie os arquivos com clareza: Utilize padrões como “AAAAMMDD_Comprovante_Pix.pdf” ou “AAAAMMDD_Boletim_Ocorrencia.pdf”.
- Elabore um resumo cronológico: Escreva um texto simples descrevendo a sequência dos fatos com datas, horários e valores envolvidos.
- Não altere os arquivos originais: Mantenha os PDFs e imagens da forma como foram emitidos ou capturados, sem edições de imagem.
- Apresente o material para análise jurídica: Disponibilize o acervo organizado para que os profissionais possam examinar a viabilidade técnica das medidas administrativas e judiciais cabíveis.
A correta instrução probatória representa o passo inicial e indispensável para resguardar direitos, possibilitar o questionamento formal das recusas bancárias e buscar a reparação integral dos prejuízos decorrentes de ilícitos no sistema financeiro.
Perguntas frequentes (FAQ)
Quais provas são mais importantes em uma fraude bancária?
Extratos, comprovantes das operações contestadas, protocolos de atendimento, registros de comunicação com o golpista e a resposta formal da instituição financeira.
Print de tela vale como prova?
Vale como indício e deve ser preservado. Seu peso aumenta quando acompanhado de protocolos, extratos e, em situações mais sensíveis, de registro em ata notarial.
Como peço os registros e logs ao banco?
Por requerimento formal dirigido à instituição, com identificação das operações contestadas, do período e do pedido expresso de conservação dos dados.
Por quanto tempo os registros ficam disponíveis?
Os prazos variam conforme o tipo de registro e a norma aplicável, por isso o pedido de preservação deve ser feito o quanto antes, evitando o descarte das informações.
Preciso de ata notarial em todos os casos?
Não. A ata notarial é indicada quando o conteúdo digital pode ser alterado ou removido, situação em que o registro em cartório reforça a segurança da prova.
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Sobre o autor

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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.
Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.
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