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Terceirização de atividade-fim: responsabilidade e cuidados da empresa contratante

Equipe terceirizada de limpeza e manutencao em predio comercial

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 9 min · Publicado em 08/08/2026

Terceirizar a atividade-fim é lícito — e isso está pacificado desde o julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre o tema. A empresa contratante pode transferir a execução de qualquer de suas atividades, inclusive a principal, para empresa prestadora de serviços. O que não mudou é o conjunto de obrigações que acompanha essa escolha: a contratante responde subsidiariamente pelas obrigações trabalhistas do período de prestação, precisa observar a chamada quarentena de dezoito meses e responde por saúde e segurança quando o trabalho ocorre em suas dependências. O risco, portanto, migrou da licitude do modelo para a qualidade da gestão do contrato.

A regra: o que a lei e o STF definiram

A regra legal. A Lei nº 6.019/1974, com as alterações das Leis nº 13.429/2017 e nº 13.467/2017, disciplina a prestação de serviços a terceiros. O art. 4º-A define a prestação de serviços como a transferência, pela contratante, da execução de quaisquer de suas atividades, inclusive sua atividade principal, à pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviços.

A definição do STF. O Supremo Tribunal Federal firmou tese, em repercussão geral, no sentido da licitude da terceirização de toda e qualquer atividade, meio ou fim, não se configurando relação de emprego entre a contratante e o empregado da contratada, com responsabilidade subsidiária da contratante.

Tradução. A discussão sobre atividade-fim está encerrada. A discussão sobre fraude, não: se a contratada é apenas fornecedora de mão de obra sob gestão direta da contratante, o vínculo pode ser reconhecido.

Responsabilidade subsidiária: o que significa na prática

A regra. O art. 5º-A, § 5º, da Lei nº 6.019/1974 estabelece que a empresa contratante é subsidiariamente responsável pelas obrigações trabalhistas referentes ao período em que ocorrer a prestação de serviços.

Tradução. Subsidiária significa que a contratante responde depois de esgotada a execução contra a prestadora. Não é solidária — o trabalhador não pode escolher livremente de quem cobrar —, mas na prática a contratante acaba pagando com frequência, porque prestadoras de serviços costumam ter patrimônio reduzido.

Extensão. A responsabilidade alcança as verbas do período da prestação: salários, verbas rescisórias, horas extras, adicionais, FGTS e contribuições, conforme reconhecido em cada caso. Não alcança, em regra, obrigações estranhas ao período contratado.

Dever de fiscalização. A jurisprudência trabalhista associa a responsabilidade à conduta culposa da contratante na fiscalização do contrato. Por isso, comprovar fiscalização efetiva é a principal defesa disponível.

Fiscalização do contrato: o que documentar

Item Periodicidade recomendada
Folha de pagamento dos empregados alocados Mensal
Comprovantes de recolhimento do FGTS Mensal
Guias e comprovantes previdenciários Mensal
Comprovantes de pagamento de benefícios Mensal
Controle de jornada dos alocados Mensal
Certidões de regularidade fiscal e trabalhista Periódica
Documentos de saúde e segurança e treinamentos Na alocação e nas renovações
Termos de rescisão dos que deixam o posto A cada desligamento

Guardar esses documentos organizados por competência, com registro de quem conferiu e quando, é o que transforma a fiscalização em prova. Cláusula contratual prevendo a obrigação, sem execução comprovada, não produz o mesmo efeito.

A quarentena de dezoito meses

A regra. O art. 5º-C da Lei nº 6.019/1974 veda que figure como contratada a pessoa jurídica cujos titulares ou sócios tenham, nos últimos dezoito meses, prestado serviços à contratante na qualidade de empregado ou trabalhador sem vínculo, exceto se forem aposentados. O art. 5º-D veda que o empregado demitido seja contratado, como pessoa jurídica ou por meio de prestadora, para prestar serviços à mesma empresa antes do decurso de dezoito meses contados da demissão.

Consequência prática. Demitir e recontratar o mesmo profissional por meio de empresa terceirizada dentro desse prazo é irregularidade objetiva, facilmente identificável em fiscalização e em processo judicial, e costuma sustentar o reconhecimento de fraude e de vínculo.

O que caracteriza fraude na terceirização

O ponto central é a autonomia da prestadora. Ela deve ter capacidade econômica compatível, estrutura própria, gestão dos seus empregados e responsabilidade pela execução do serviço contratado. Quando a contratante define escala, aplica advertência, controla ponto, dá ordens diretas e substitui trabalhadores a seu critério, a prestadora deixa de ser prestadora e passa a ser intermediadora de mão de obra.

Alguns sinais recorrentes: terceirizado subordinado a gestor da contratante; participação em avaliação de desempenho da contratante; uso de crachá e uniforme sem identificação da prestadora; e ausência de supervisão da empregadora no local. Esses elementos aproximam a situação da discussão sobre fraude na contratação e devem ser corrigidos na operação, e não apenas no contrato.

Saúde, segurança e acidente do trabalho

O art. 5º-A, § 3º, da Lei nº 6.019/1974 dispõe que é responsabilidade da contratante garantir as condições de segurança, higiene e salubridade dos trabalhadores, quando o trabalho for realizado em suas dependências ou em local por ela designado. Isso inclui informação sobre riscos, controle de acesso a áreas críticas e integração de segurança.

Em caso de acidente, a emissão da comunicação cabe primordialmente à empregadora direta, mas a contratante tem deveres próprios de prevenção e pode responder quando o ambiente sob sua gestão contribuiu para o evento. O tema é tratado em detalhe no artigo sobre acidente de trabalho.

Erros práticos frequentes

Contratar prestadora sem verificar capacidade econômica; não fiscalizar mensalmente a documentação; permitir que gestores da contratante deem ordens diretas aos terceirizados; recontratar ex-empregado via prestadora dentro da quarentena; não incluir cláusulas de retenção e garantia; e encerrar o contrato sem exigir comprovação de quitação das verbas dos trabalhadores alocados. Também é erro comum tratar todos os terceirizados como se fossem empregados próprios em políticas internas, o que enfraquece a separação necessária entre as empresas.

Perguntas frequentes

É permitido terceirizar a atividade principal da empresa?

Sim. O art. 4º-A da Lei nº 6.019/1974 e a tese firmada pelo Supremo Tribunal Federal admitem a terceirização de quaisquer atividades, inclusive a atividade principal.

A contratante responde pelas dívidas trabalhistas da prestadora?

Responde subsidiariamente pelas obrigações referentes ao período da prestação de serviços, conforme o art. 5º-A, § 5º, da Lei nº 6.019/1974.

Como a contratante pode reduzir esse risco?

Com fiscalização documentada e periódica, exigência de comprovantes mensais, cláusulas de retenção e garantia no contrato e verificação da idoneidade econômica da prestadora antes da contratação.

O que é a quarentena de dezoito meses?

É a vedação prevista nos arts. 5º-C e 5º-D da Lei nº 6.019/1974, que impede a contratação, como prestadora ou por meio dela, de quem tenha sido empregado ou prestador da contratante nos dezoito meses anteriores, com a exceção legal relativa a aposentados.

Terceirizado pode receber ordens do gestor da contratante?

Não é recomendável. A gestão dos empregados cabe à prestadora. Ordens diretas, controle de jornada e poder disciplinar exercidos pela contratante são indícios fortes de intermediação irregular de mão de obra.

Cláusulas contratuais que efetivamente protegem a contratante

O contrato de prestação de serviços é o principal instrumento de mitigação de risco, desde que vá além das cláusulas genéricas de responsabilidade. Cinco previsões costumam produzir efeito concreto. A primeira é a obrigação de entrega mensal da documentação trabalhista e previdenciária dos empregados alocados, com prazo definido e consequência para o descumprimento. A segunda é a retenção de pagamento condicionada à comprovação dessas obrigações, mecanismo que cria incentivo real ao cumprimento.

A terceira é a garantia contratual — seguro, caução ou fiança — dimensionada de acordo com o número de trabalhadores alocados e a duração prevista do contrato. A quarta é a obrigação de comunicação imediata de qualquer reclamação trabalhista envolvendo empregado do posto, permitindo à contratante acompanhar o processo desde o início. A quinta é a previsão de comprovação de quitação integral das verbas rescisórias na substituição de trabalhadores e no encerramento do contrato, com retenção do último pagamento até a apresentação dos documentos.

Vale reforçar que nenhuma dessas cláusulas afasta a responsabilidade subsidiária perante o trabalhador. Elas organizam a relação entre as empresas, viabilizam o direito de regresso e, sobretudo, produzem a documentação que demonstra fiscalização efetiva — que é exatamente o que se discute em juízo.

Encerramento do contrato de terceirização

O momento de maior exposição da contratante costuma ser o encerramento do contrato, especialmente quando a prestadora enfrenta dificuldades financeiras. É nesse ponto que aparecem rescisões não pagas, FGTS em atraso e verbas pendentes, que rapidamente se convertem em reclamações contra as duas empresas.

A prática recomendada é planejar a saída com antecedência: exigir a relação nominal dos empregados alocados, acompanhar as rescisões, condicionar o pagamento final à apresentação dos termos quitados e dos comprovantes de recolhimento e, quando houver substituição por outra prestadora, documentar a transição de forma clara. Assumir a equipe da prestadora anterior sem qualquer formalização é decisão que costuma gerar discussão sobre sucessão e sobre continuidade dos contratos de trabalho.

Fontes oficiais consultadas

Conteúdo informativo, elaborado com base na legislação e em fontes oficiais. Não substitui análise individualizada do caso.

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Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

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