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Embargo de obra e nunciação de obra nova: como paralisar uma construção

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 10 min · Publicado em 12/08/2026

Quem sofre prejuízo com a obra do vizinho tem três caminhos possíveis, que podem ser usados em conjunto. O primeiro é o embargo administrativo, provocado por denúncia à fiscalização municipal quando a obra é irregular do ponto de vista urbanístico — sem alvará, em desacordo com o projeto ou violando recuos e gabarito. O segundo é o embargo extrajudicial, previsto no Código Civil, pelo qual o prejudicado notifica formalmente o construtor, por via notarial ou por testemunhas, para que suspenda a obra, devendo ratificar o ato em juízo em curto prazo. O terceiro é o judicial: ação de obrigação de não fazer, com pedido de tutela de urgência para paralisar a construção, sucedida, conforme o caso, de pedido de demolição do que foi indevidamente edificado.

A antiga ação de nunciação de obra nova, que tinha procedimento especial no Código de Processo Civil de 1973, não foi mantida como rito próprio no CPC de 2015 — mas a pretensão continua plenamente viável pelo procedimento comum, com tutela provisória. Este guia explica quando cabe cada via e o que fazer para não perder o momento certo de agir.

Quando cabe paralisar a obra do vizinho?

Resposta direta: quando a construção prejudica o imóvel, viola o direito de vizinhança ou desrespeita normas urbanísticas.

As hipóteses mais frequentes são: obra que invade a divisa; janela, sacada ou terraço a menos de metro e meio; construção que ameaça a segurança do prédio vizinho, com escavação, contenção inadequada ou risco de desmoronamento; obra que lança águas sobre o terreno ao lado; edificação que viola recuo, gabarito ou taxa de ocupação; e construção sem alvará ou em desacordo com o projeto aprovado.

O Código Civil dá base sólida a essas pretensões. O art. 1.277 assegura fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde; o art. 1.280 permite exigir a demolição ou a reparação do prédio vizinho quando ameace ruína, bem como caução pelo dano iminente; e o art. 1.299 estabelece que o proprietário pode levantar em seu terreno as construções que lhe aprouver, salvo o direito dos vizinhos e os regulamentos administrativos.

Como funciona o embargo administrativo?

Resposta direta: por denúncia à fiscalização municipal, que vistoria e pode embargar a obra irregular.

É a via mais rápida e mais barata, e frequentemente a mais eficaz. Basta protocolar denúncia junto à secretaria de obras ou de urbanismo, indicando o endereço, o problema constatado e, se possível, fotografias. A fiscalização vistoria, autua e pode determinar a paralisação até a regularização.

Duas cautelas: guarde o protocolo e acompanhe o andamento, porque a inércia administrativa é comum; e não confie exclusivamente nessa via quando houver risco estrutural ao seu imóvel — nesse caso, a medida judicial urgente é indispensável.

Vale lembrar que o embargo administrativo não resolve o dano privado. Ele suspende a obra, mas não indeniza rachaduras, infiltrações ou desvalorização. Para isso, é preciso a ação própria.

O que é o embargo extrajudicial?

Resposta direta: é a notificação do prejudicado ao construtor para que suspenda a obra, com posterior ratificação em juízo.

O Código Civil admite que o prejudicado, em caso de urgência, promova o embargo por via extrajudicial, notificando verbalmente o construtor perante duas testemunhas, ou por instrumento notarial, para que a obra seja imediatamente suspensa — devendo ratificar o ato em juízo em prazo curto, sob pena de perder eficácia.

Na prática, a forma mais segura é a notificação por cartório de títulos e documentos ou a ata notarial, que documenta a data, o teor e a entrega. Esse marco é valiosíssimo: além de suspender a obra, ele afasta a alegação de boa-fé do construtor a partir dali, o que muda completamente o regime de consequências em caso de invasão de divisa, como explicamos em construção que invade o terreno vizinho.

Via Quem decide Velocidade Resolve o dano privado?
Embargo administrativo Fiscalização municipal Alta Não
Embargo extrajudicial O próprio prejudicado, com ratificação judicial Imediata Não, mas fixa o marco
Tutela de urgência judicial Juiz Média Sim, com o pedido principal

Como estruturar o pedido judicial?

Resposta direta: obrigação de não fazer com tutela de urgência, cumulada com demolição e indenização.

A petição deve demonstrar a probabilidade do direito — projeto, matrícula, levantamento topográfico, laudo técnico, fotos datadas, legislação municipal aplicável — e o perigo de dano, que na construção é evidente: cada dia de obra consolida o problema e encarece a solução.

Os pedidos usuais são: paralisação imediata da obra, com multa diária; obrigação de adequar ou demolir a parte irregular; indenização pelos danos causados ao imóvel; e, quando há risco estrutural, prestação de caução pelo dano iminente, na forma do art. 1.280.

Vale considerar também a produção antecipada de provas, especialmente para documentar o estado do imóvel antes que a obra avance e apagar vestígios. É a mesma lógica probatória que aplicamos em conflitos de infiltração, detalhada em infiltração: quem paga o conserto.

E se a obra já estiver concluída?

Resposta direta: muda o pedido: em vez de paralisar, discute-se demolir, adequar ou indenizar.

Concluída a construção, a via natural é a ação demolitória, cumulada com indenização. Mas a demolição não é automática: o Judiciário tende a examinar a proporcionalidade, a boa ou má-fé do construtor e a possibilidade de solução menos drástica.

Por isso o tempo é o fator mais importante em toda essa matéria. Quem embarga no início resolve com pouco; quem espera a obra terminar enfrenta um debate muito mais difícil, com resultado frequentemente limitado à indenização. Além disso, o prazo de ano e dia do art. 1.302, aplicável a janelas, sacadas e goteiras, corre da conclusão da obra — e sua perda elimina o direito de exigir o desfazimento, como tratamos em janela e sacada: a regra do metro e meio.

Roteiro prático

Resposta direta: documente, denuncie, notifique e ajuíze — nessa ordem e sem demora.

  1. Documente a obra desde o início, com fotos datadas e, se possível, ata notarial do estado do seu imóvel.
  2. Consulte o alvará e o projeto aprovado junto à prefeitura.
  3. Contrate laudo técnico se houver trinca, recalque ou risco estrutural.
  4. Denuncie à fiscalização municipal e guarde o protocolo.
  5. Notifique formalmente o construtor, fixando prazo e advertindo sobre as consequências.
  6. Ajuíze com tutela de urgência se a obra não parar, cumulando adequação e indenização.

Trincas e recalque por obra vizinha: como provar

Resposta direta: com vistoria cautelar antes do início e monitoramento durante a execução.

O maior erro de quem convive com uma obra ao lado é registrar o estado do próprio imóvel só depois que a trinca aparece. Sem o retrato do “antes”, a construtora sempre alegará que o dano é preexistente — e essa alegação costuma prevalecer quando não há prova em contrário.

A providência correta é a vistoria cautelar: laudo elaborado por profissional habilitado, com registro fotográfico datado de fachadas, paredes, pisos, forros e esquadrias, feito antes ou no início da obra vizinha. Em obras de porte, essa vistoria costuma ser oferecida pela própria construtora, e é fortemente recomendável aceitar e guardar cópia.

Durante a execução, o monitoramento por fissurômetro e o registro fotográfico periódico documentam a evolução dos danos e permitem correlacioná-los com as etapas da obra — escavação, rebaixamento de lençol, cravação de estacas, demolição.

Com esse conjunto, a discussão deixa de ser de palavra contra palavra. E, havendo risco à estabilidade, o art. 1.280 do Código Civil permite exigir a reparação do prédio vizinho que ameace ruína, bem como a prestação de caução pelo dano iminente — instrumento pouco usado e bastante eficaz.

Quem responde: o construtor, o dono da obra ou os dois?

Resposta direta: em regra, ambos respondem perante o vizinho prejudicado.

A responsabilidade pelos danos causados a terceiros pela execução da obra alcança o proprietário que a encomendou e a empresa que a executa, sem prejuízo do direito de regresso entre eles conforme o contrato. Para o vizinho lesado, isso é uma vantagem prática: pode demandar quem tiver melhor capacidade de pagamento.

Também podem ser chamados o responsável técnico pelo projeto e pela execução, quando o dano decorre de erro de projeto, de dimensionamento ou de método construtivo, e a seguradora, quando há apólice de responsabilidade civil da obra.

Por isso, ao estruturar a demanda, vale identificar todos os envolvidos: proprietário, incorporadora, construtora, responsáveis técnicos com ART ou RRT e eventual seguradora. Uma composição correta do polo passivo evita a frustração de ganhar a ação e não conseguir receber.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. A nunciação de obra nova ainda existe?

O rito especial não foi mantido no CPC de 2015, mas a pretensão continua viável pelo procedimento comum, com pedido de tutela de urgência.

2. Posso parar a obra do vizinho sozinho?

Pode promover o embargo extrajudicial, notificando formalmente o construtor, com posterior ratificação em juízo. Não é permitido impedir a obra por força própria.

3. A prefeitura pode embargar?

Sim, quando a obra é irregular do ponto de vista urbanístico. É a via mais rápida, mas não resolve o dano privado.

4. Dá para exigir demolição?

Sim, especialmente quando há má-fé ou violação clara de norma. O Judiciário examina proporcionalidade e alternativas menos drásticas.

5. Quanto tempo tenho para agir?

O quanto antes. Para janelas, sacadas e goteiras, o art. 1.302 fixa ano e dia após a conclusão da obra para exigir o desfazimento.

Fontes oficiais consultadas

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do seu caso por um advogado.

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Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

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