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Infiltração no apartamento: quem paga o conserto e como cobrar

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 10 min · Publicado em 11/08/2026

A responsabilidade pela infiltração depende da origem do vazamento. Se o problema nasce em área comum — prumada, coluna de água ou esgoto, fachada, laje de cobertura, caixa d’água, telhado —, quem responde é o condomínio, porque a conservação das partes comuns é dever coletivo de natureza propter rem. Se a origem está em instalação privativa — encanamento interno da unidade, box, ralo, impermeabilização de área molhada, ar-condicionado —, responde o titular ou o ocupante da unidade causadora. O proprietário do terraço de cobertura tem dever específico de conservação, para que não haja danos às unidades inferiores (art. 1.344 do Código Civil). A pretensão de reparação civil prescreve, em regra, em três anos (art. 206, § 3º, V), contados do conhecimento do dano e de sua autoria.

Infiltração é o típico problema que se resolve mal porque começa errado: o morador prejudicado reclama, o vizinho nega, o síndico não age e todos passam meses discutindo de onde vem a água. Este guia organiza a solução em etapas — identificar a origem, produzir prova válida, notificar corretamente e, se necessário, judicializar com o pedido certo.

Quem é responsável: o vizinho ou o condomínio?

Resposta direta: quem responde é o titular da área de onde parte o vazamento.

A regra prática é a da origem. Prumadas, colunas coletivas, fachada, telhado, laje, calhas, reservatórios e a estrutura do prédio são partes comuns (art. 1.331, § 2º), e sua conservação cabe ao condomínio. Ramais internos, metais, registros, box, impermeabilização de banheiro e área de serviço dentro da unidade são responsabilidade do proprietário.

Há duas situações intermediárias que geram discussão. A primeira é a das partes comuns de uso exclusivo, como terraços e jardins privativos: o art. 1.340 determina que as despesas relativas a partes comuns de uso exclusivo de um condômino, ou de alguns deles, incumbem a quem delas se serve. A segunda é a do terraço de cobertura: o art. 1.344 é expresso ao atribuir ao proprietário as despesas de conservação, de modo que não haja danos às unidades inferiores.

Vale um esclarecimento técnico que evita erro comum: o art. 1.336, II, proíbe o condômino de realizar obras que comprometam a segurança da edificação, mas não é ele, sozinho, que define a responsabilidade por vazamentos. A responsabilidade se resolve pela regra geral da reparação civil, somada à titularidade da área causadora.

Origem da infiltração Responsável Base legal
Prumada, coluna, fachada, telhado, laje, reservatório Condomínio Arts. 1.331, § 2º, e 1.348, V
Encanamento interno, box, ralo, impermeabilização da unidade Proprietário da unidade Arts. 186 e 927
Terraço de cobertura Proprietário do terraço Art. 1.344
Parte comum de uso exclusivo (jardim, varanda técnica) Quem dela se serve Art. 1.340

Como identificar e provar a origem do vazamento?

Resposta direta: com laudo técnico. Sem prova da origem, não há como imputar responsabilidade.

A prova técnica é o coração desse tipo de conflito. Os meios usuais são o teste de estanqueidade, a inspeção com câmera termográfica, o geofone eletrônico e o ensaio com corante. O resultado deve vir em laudo assinado por profissional habilitado, com registro fotográfico datado, descrição do método e conclusão sobre o ponto de origem.

Quando o suposto responsável se recusa a permitir a vistoria ou quando há risco de o vestígio desaparecer com o reparo, existe um instrumento processual desenhado exatamente para isso: a produção antecipada de provas, prevista no art. 381 do Código de Processo Civil. Ela permite documentar a origem e a extensão do dano antes da ação principal, com participação da parte contrária e do perito nomeado pelo juízo — o que confere ao laudo força probatória muito superior à de um parecer unilateral.

Do lado do morador prejudicado, o registro paralelo é igualmente importante: fotos e vídeos datados da evolução da mancha, comunicações escritas ao síndico e ao vizinho, protocolos, orçamentos de reparo e comprovantes de despesas com hospedagem ou mudança, quando houver.

O vizinho pode se recusar a deixar entrar para o reparo?

Resposta direta: pode resistir de fato, mas a lei dá caminho para vencer a recusa — e ninguém deve entrar à força.

Autotutela aqui é péssima ideia: arrombar, quebrar parede do vizinho ou invadir a unidade gera responsabilidade civil e possível repercussão criminal, ainda que a razão esteja com quem age. O caminho correto é judicial e é rápido quando bem instruído.

O fundamento está no direito de vizinhança. O art. 1.277 assegura ao proprietário ou possuidor o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde de quem habita o imóvel, provocadas pela utilização de propriedade vizinha. E o art. 1.280 permite exigir do dono do prédio vizinho a demolição ou a reparação deste quando ameace ruína, bem como a prestação de caução pelo dano iminente. Com base nesses dispositivos, pede-se tutela específica de urgência, autorizando o acesso e determinando o reparo sob pena de multa diária.

Quando o responsável é o condomínio e o síndico se omite, a lógica é a mesma, com o acréscimo de que a inércia pode ser levada à assembleia — inclusive como fundamento de destituição, tema tratado em síndico de condomínio: eleição, destituição e prestação de contas.

O que se pode exigir: só o conserto ou também indenização?

Resposta direta: os dois, cumulativamente.

O pedido típico combina obrigação de fazer — executar o reparo na origem, com prazo e multa diária — e reparação material, que abrange a recomposição do imóvel atingido, pintura, troca de revestimentos, móveis e bens danificados, além de despesas comprovadas. Havendo prova de que a unidade ficou inabitável, cabe também discussão sobre lucros cessantes ou custo de hospedagem.

O dano moral não é automático. Aborrecimento comum não gera indenização, mas a infiltração grave, prolongada, com mofo, insalubridade e omissão reiterada de quem deveria reparar tem sido reconhecida como violação a direito da personalidade, especialmente quando compromete a saúde dos moradores. Quanto mais documentada a cronologia da omissão, mais consistente o pedido.

Um alerta importante sobre a natureza das obrigações: o dever de conservação e reparo das partes comuns acompanha o imóvel e é propter rem. Já a pretensão indenizatória pelos danos causados exige identificar o responsável, o nexo causal e o período do fato — não basta apontar o atual proprietário se o dano ocorreu em outro período de titularidade.

Qual é o prazo para cobrar?

Resposta direta: três anos para a pretensão de reparação civil, contados da ciência do dano e de sua autoria.

O art. 206, § 3º, V, do Código Civil fixa o prazo trienal para a pretensão de reparação civil. A contagem, porém, tem uma particularidade nas infiltrações: como o dano costuma ser continuado, renovando-se enquanto a água persiste, a jurisprudência tende a considerar que o prazo não corre desde a primeira mancha, mas se renova enquanto perdura a lesão — o que amplia significativamente a janela de cobrança.

A obrigação de fazer o reparo, por sua vez, não se sujeita ao mesmo raciocínio: enquanto existir o vício e o dever de conservação, a pretensão de exigir a correção subsiste. Ainda assim, a recomendação prática é agir cedo: prova envelhece mal, e a demora costuma ser usada contra quem reclama.

Infiltração em imóvel alugado: quem resolve?

Resposta direta: o locador, quando se trata de vício estrutural anterior ou de responsabilidade do condomínio; o locatário, quando o dano decorre do uso.

A Lei do Inquilinato impõe ao locador entregar e manter o imóvel em estado de servir ao uso a que se destina, respondendo pelos vícios anteriores à locação. Infiltração vinda de prumada, laje ou fachada é, portanto, problema do proprietário e do condomínio, não do inquilino — e pode até justificar abatimento do aluguel ou rescisão sem multa quando torna o imóvel impróprio.

Já os danos decorrentes de mau uso, como entupimento provocado pelo ocupante ou falta de manutenção de itens de sua responsabilidade, recaem sobre o locatário. Tratamos do tema em detalhe em mofo e infiltração no imóvel alugado.

Roteiro prático em seis passos

Resposta direta: notifique por escrito, prove a origem, dê prazo, escale para o condomínio e só então judicialize.

  1. Registre a ocorrência no condomínio, por escrito, com fotos datadas.
  2. Notifique formalmente o vizinho ou o síndico, conforme a origem provável, fixando prazo razoável para vistoria.
  3. Contrate laudo técnico para determinar a origem, preferencialmente com acompanhamento da outra parte.
  4. Peça a inclusão do tema em assembleia, se a responsabilidade for do condomínio e o síndico não agir.
  5. Considere a produção antecipada de provas (art. 381 do CPC) quando houver recusa de acesso ou risco de perda do vestígio.
  6. Ajuíze ação de obrigação de fazer com tutela de urgência e pedido indenizatório, instruída com toda a cronologia documentada.

Perguntas frequentes sobre infiltração no apartamento (FAQ)

1. Infiltração vinda do apartamento de cima: quem paga?

O proprietário da unidade de onde parte o vazamento, se a origem for instalação privativa. Se a origem for prumada ou outra área comum, responde o condomínio.

2. Posso obrigar o vizinho a deixar o técnico entrar?

Sim, por ordem judicial fundada nos arts. 1.277 e 1.280 do Código Civil, com tutela de urgência. Entrar à força, por conta própria, não é permitido.

3. Qual o prazo para processar por infiltração?

Três anos para a reparação civil (art. 206, § 3º, V). Como o dano costuma ser continuado, a contagem se renova enquanto persistir a infiltração.

4. Infiltração gera dano moral?

Não automaticamente. Gera quando é grave, prolongada, insalubre e há omissão comprovada de quem deveria reparar.

5. Quem paga a infiltração vinda do terraço de cobertura?

O proprietário do terraço, a quem o art. 1.344 do Código Civil atribui as despesas de conservação, de modo a não causar danos às unidades inferiores.

Fontes oficiais consultadas

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do seu caso por um advogado.

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Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

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