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Comprei passagem e desisti de viajar, a companhia pode reter 100% do valor?

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 11 min · Atualizado em 04/09/2026

Você comprou a passagem, a viagem não vai mais acontecer e a companhia responde que a tarifa é promocional e não devolve nada. Na maior parte das situações, ficar com 100% do valor pago é considerado abusivo. A empresa pode descontar uma multa de cancelamento e reter parte do preço, mas reter tudo é outra coisa. O tamanho desse desconto muda conforme o momento em que você desistiu, o tipo de tarifa comprada e o que estava escrito nas regras no dia da compra.

A regra em palavras simples

Quem desiste de um contrato antes de o serviço ser prestado costuma ter de arcar com um custo, e isso é justo: a empresa se organizou, reservou o assento e vai ter trabalho para vender de novo. O que a lei do consumidor não aceita é a empresa ficar com todo o dinheiro sem ter transportado ninguém, porque aí ela recebe duas vezes pelo mesmo assento, uma de você e outra de quem comprar o lugar depois.

Por isso, a discussão real quase nunca é “devolve tudo ou não devolve nada”. A discussão é quanto pode ser descontado. E esse desconto precisa ter alguma relação com o prejuízo que a companhia teve, não pode ser um número escolhido só para desestimular o cancelamento.

As primeiras 24 horas depois da compra

Existe uma janela curta e muito favorável ao passageiro: as regras da aviação civil brasileira permitem desistir da passagem em até 24 horas contadas do recebimento do comprovante da compra, sem pagar multa, desde que a compra tenha sido feita com sete dias ou mais de antecedência em relação ao embarque. Nessa hipótese, a devolução costuma ser integral, incluindo as taxas.

É a mesma lógica do direito de arrependimento em compras feitas fora da loja física, só que com prazo próprio e mais curto para o setor aéreo. Se você percebeu o erro logo, peça o cancelamento no mesmo dia e guarde o protocolo: essa é a situação mais simples de resolver.

Passou das 24 horas: quanto pode ser retido

Fora dessa janela, entra a multa de cancelamento prevista nas regras da tarifa. Ela pode existir, mas precisa ter sido informada de forma clara antes do pagamento e não pode consumir o valor inteiro. Na prática dos tribunais brasileiros, retenções pequenas ou moderadas costumam ser aceitas, e retenções que se aproximam do valor total costumam ser reduzidas, sobrando para o passageiro a devolução do restante.

Vale a mesma leitura que se faz de qualquer cláusula penal e multa contratual: multa serve para compensar um prejuízo, não para punir quem desistiu. Quanto mais longe do embarque foi o cancelamento, mais fácil fica sustentar que o prejuízo da companhia foi pequeno, porque sobrou tempo de vender o assento de novo.

As taxas embutidas no bilhete seguem outra lógica

O preço da passagem não é só a tarifa da companhia. Há valores cobrados junto e repassados a terceiros, como a taxa de embarque, devida ao aeroporto pelo uso da estrutura. Se você não embarcou, esse valor não chegou a ser devido, e a devolução dele é a parte mais tranquila do pedido, inclusive em tarifa promocional. Quando a empresa devolve “nada”, em geral ela está retendo também um dinheiro que nem era dela.

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Tarifa promocional e “não reembolsável” mudam o resultado?

Mudam o valor, não o princípio. Tarifa mais barata costuma vir com multa maior, e isso é aceito com naturalidade quando a diferença de preço foi real e informada. O que se discute é o rótulo “não reembolsável” usado como se fosse um botão que apaga qualquer devolução. Cláusula que joga todo o risco para o consumidor e nenhum para o fornecedor entra na lista de cláusulas abusivas em contratos de consumo e pode ser revista.

Há um detalhe que costuma decidir o caso: a companhia precisa demonstrar que as condições da tarifa apareceram de forma visível antes do clique de pagamento. Regra escondida em link secundário, em letra minúscula ou apresentada só depois da compra tem força bem menor.

Quando há chance de recuperar valor e quando a chance é pequena

Situação O que costuma acontecer
Cancelamento em até 24 horas da compra, com voo dali a sete dias ou mais Devolução integral, sem multa
Cancelamento semanas antes do voo, tarifa comum Devolução com desconto da multa; as taxas voltam
Cancelamento em cima da data, tarifa promocional Retenção parcial maior costuma ser aceita; discute-se o excesso
Passageiro não apareceu para o voo, sem avisar Cenário mais difícil; ainda assim as taxas tendem a ser devolvidas
Doença, morte na família ou convocação oficial, com documento Espaço para pedir devolução maior ou remarcação sem custo
Voo cancelado ou muito alterado pela companhia Devolução integral, porque a desistência não partiu do passageiro

Quando a passagem veio dentro de um pacote com hotel e passeios, a conta é outra e envolve também a agência, assunto tratado em pacote turístico e hospedagem.

O que serve de prova e quem precisa provar o quê

Do seu lado, o material é simples de reunir: comprovante da compra, e-mail de confirmação, prints das regras da tarifa como estavam no site naquele dia, data e protocolo do pedido de cancelamento, extrato do cartão mostrando a cobrança e um eventual estorno parcial, além das conversas com o atendimento.

Você precisa mostrar que comprou, que pediu o cancelamento e quando pediu. A companhia é que precisa mostrar duas coisas mais difíceis: que informou a regra de forma clara antes do pagamento e que o valor retido corresponde a um custo real. Em relação de consumo, o juiz pode determinar que a empresa apresente esses dados, já que só ela tem os sistemas e os números.

O que a companhia costuma alegar

As respostas se repetem: que a tarifa era promocional e não comporta reembolso; que o passageiro aceitou as condições ao concluir a compra; que houve custo de comercialização e de gestão da reserva; que o pedido chegou fora do prazo interno; e que qualquer valor a devolver virou crédito para uso futuro, com validade curta. Crédito imposto no lugar de dinheiro, quando o consumidor pediu dinheiro, é um dos pontos mais questionados.

Onde o caso costuma ser perdido

Perde-se, na maioria das vezes, por falta de registro. Cancelamento pedido só por telefone, sem protocolo anotado, vira palavra contra palavra. Também pesa contra o passageiro sumir: quem não embarca e só reclama meses depois tem mais dificuldade do que quem avisou com antecedência. Outro erro comum é exigir a devolução de tudo sem admitir nenhum desconto, quando a discussão realista era reduzir a retenção. E há o caso de quem aceita um crédito com validade curta e, depois que ele vence, tenta reabrir a questão.

Prazos que importam

São poucos e vale anotar: 24 horas após a compra para desistir sem multa, quando o voo está a sete dias ou mais; sete dias, em regra, para a companhia devolver o valor depois do pedido de reembolso; um ano de validade do bilhete para remarcação ou uso do crédito, conforme as condições contratadas; dez dias de prazo de resposta quando a reclamação é registrada na plataforma oficial de consumo do governo; e, de modo geral, cinco anos para cobrar na Justiça um valor pago e não devolvido. Deixar o tempo correr sem nenhum registro escrito é o que mais atrapalha depois.

O que fazer, na ordem

  1. Peça o cancelamento por um canal que gere registro, como site, aplicativo, chat ou e-mail, e guarde número de protocolo, data e horário.
  2. Salve as regras da tarifa e a página de compra do jeito que estavam, em print ou PDF, antes que o site mude.
  3. Peça por escrito a memória de cálculo: quanto foi retido a título de multa, quanto de taxas e qual valor será devolvido.
  4. Recuse o crédito se você quer dinheiro, e deixe isso escrito no mesmo canal.
  5. Sem solução, registre a reclamação nos canais oficiais, caminho detalhado em onde reclamar: Procon, Consumidor.gov.br e Juizado Especial.
  6. Se ainda assim não resolver, o Juizado Especial atende causas de até vinte salários mínimos e admite ingresso sem advogado em parte delas; acima disso, ou em caso mais complicado, converse com um advogado antes.

Sobre pedir dano moral: a recusa de devolver o dinheiro, sozinha, costuma ser tratada como prejuízo material. Para haver alguma chance de indenização por dano moral, em geral será necessário demonstrar algo além disso, como cobrança constrangedora, muitos meses de descaso ou consequências concretas que passaram do aborrecimento.

Perguntas frequentes

Cancelei a passagem e a empresa devolveu só uma parte pequena. Isso é normal?

Desconto pode existir, mas retenção próxima do valor total costuma ser questionada. Peça a memória de cálculo por escrito e compare com as regras da tarifa que estavam no site na data da compra.

Comprei a passagem ontem e desisti hoje. Preciso pagar multa?

Se o pedido foi feito dentro de 24 horas do comprovante e o voo estava a sete dias ou mais, em regra a devolução é integral, sem multa. Guarde o horário do pedido.

A taxa de embarque volta mesmo em passagem promocional?

Em geral sim, porque ela é devida pelo uso do aeroporto e você não embarcou. É a parcela mais fácil de recuperar quando a empresa devolveu zero.

Perdi o voo e não avisei ninguém. Ainda dá para receber algo?

Fica mais difícil, mas não é caso perdido: as taxas costumam ser devolvidas e parte da tarifa pode ser discutida. Peça o reembolso por escrito assim que possível.

A companhia pode me obrigar a aceitar crédito no lugar do dinheiro?

Quando você pediu devolução em dinheiro, impor crédito com validade curta é um dos pontos mais atacados nesse tipo de reclamação. Registre a recusa e mantenha o pedido de estorno.

Fontes oficiais consultadas

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Sobre o autor

Phelipe Cardoso, advogado do PHC Advogados - Experiencia, Estrategia, Compromisso
Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reunião no escritório

Siga @phelipecardosoadv no Instagram →

Phelipe Cardoso é advogado e fundador do PHC Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos de comunicação, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.


Entrevistas, artigos e análises jurídicas em veículos de comunicação.

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