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Comprei um equipamento para a minha empresa com defeito, a regra é do Código Civil ou do Consumidor?

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 11 min · Atualizado em 03/09/2026

Depende do uso que a sua empresa dá ao equipamento. Se a máquina entra na sua atividade e ajuda a gerar receita — o forno que assa o pão que você vende, o veículo da entrega, o compressor da linha de produção —, o caso costuma ser resolvido pela regra dos contratos do Código Civil, e não pela regra do consumidor. Se o equipamento é usado como ponto final, sem virar meio de lucro, a compra pode ser tratada como relação de consumo. E há uma terceira porta, que é onde muita empresa pequena consegue se defender: mesmo comprando algo ligado à atividade, se a empresa era claramente a parte frágil diante do fornecedor, os tribunais podem aplicar a regra do consumidor ao caso.

Essa não é uma discussão acadêmica. O enquadramento muda o prazo para reclamar, o que dá para exigir, quem precisa provar o defeito e até onde o processo vai correr. Vale entender a lógica antes de mandar o primeiro e-mail ao fornecedor.

A pergunta que resolve o enquadramento

A regra do consumidor foi feita para quem compra como destinatário final, ou seja, para quem encerra a vida econômica do produto. Quem compra para transformar, revender ou usar como ferramenta de trabalho, em geral, não encerra nada: coloca aquele bem dentro da própria cadeia de produção e repassa o custo no preço do que vende.

Por isso a pergunta prática é curta: esse equipamento é meio de produção da sua empresa ou é item de estrutura, sem ligação direta com o que você produz e vende? A resposta resolve a maioria dos casos.

Quando a empresa costuma ser tratada como consumidora

  • Ar-condicionado da recepção, bebedouro, geladeira da copa, cadeiras e sofás da sala de espera.
  • Micro-ondas ou televisão da área de descanso dos funcionários.
  • Itens de uso administrativo comum, sem relação com o serviço que a empresa vende.
  • Compras feitas no varejo, nas mesmas condições oferecidas a qualquer pessoa física.

Nesses casos a empresa aparece como usuária final do bem, e não como elo da cadeia de produção, e os direitos típicos do consumo tendem a valer normalmente.

Quando o caso fica na regra dos contratos

  • Torno mecânico, injetora, empilhadeira, forno industrial, câmara fria de restaurante.
  • Veículo de frota, caminhão de entrega, moto de delivery.
  • Software, servidor ou computador que operam o núcleo do negócio.
  • Equipamento comprado com contrato negociado, proposta comercial, condição especial de preço ou prazo de entrega ajustado sob medida.

Aqui a discussão vira contratual: o que foi prometido, o que foi entregue e o que o contrato diz sobre garantia, assistência e responsabilidade. Uma leitura atenta das cláusulas essenciais do contrato costuma render mais resultado do que discutir se a empresa é ou não consumidora.

A exceção que muda o resultado: a empresa frágil na relação

O Superior Tribunal de Justiça vem admitindo, caso a caso, aplicar a regra do consumidor a empresas que compram equipamento para trabalhar, quando fica demonstrado que a compradora era vulnerável diante do fornecedor. Não é regra geral, nem se aplica só por a empresa ser pequena: precisa de demonstração concreta.

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O que costuma pesar nessa análise:

  • Diferença técnica evidente: um salão de beleza não avalia um equipamento eletrônico complexo como o fabricante avalia.
  • Contrato pronto, assinado sem qualquer margem de negociação.
  • Desproporção econômica clara entre uma microempresa e um grande fornecedor.
  • Informação incompleta sobre limites de uso, manutenção obrigatória ou capacidade real da máquina.

Quando esse desequilíbrio é demonstrado, a empresa compradora pode ser tratada como consumidora mesmo tendo comprado para produzir.

O que muda na prática entre as duas regras

Ponto Regra do consumidor Regra dos contratos
Prazo para o conserto 30 dias para resolver o defeito O prazo do contrato; sem previsão, o que for razoável
O que dá para exigir Conserto, troca, dinheiro de volta ou abatimento no preço Devolver e receber o valor pago ou ficar com o bem e pedir abatimento
Quem responde Vendedor e fabricante, em conjunto Em regra, quem vendeu; o fabricante entra pela garantia que deu
Quem prova O juiz pode transferir a prova para o fornecedor Em geral, quem reclama precisa provar
Prazo para reclamar 90 dias para produto durável 30 dias da entrega para defeito visível
Onde resolver Procon, plataforma pública de reclamação e Juizado Notificação, negociação e ação na Justiça comum

Os prazos, sem enrolação

Na regra do consumidor, são 90 dias para reclamar de defeito em produto durável e 30 dias para produto não durável. Se o defeito estava escondido, o prazo começa a correr do dia em que ele aparece, e não da compra. Feita a reclamação, o fornecedor tem 30 dias para resolver; passado esse tempo sem solução, abre-se a escolha entre troca, devolução do dinheiro ou desconto. Já o prejuízo causado por um produto que apresentou risco e gerou dano segue um prazo bem mais longo, de cinco anos.

Na regra dos contratos o prazo é mais curto e mais duro: 30 dias contados da entrega para o defeito que dava para ver. Se o problema estava escondido, o prazo conta da descoberta, mas existe um teto — em compras de bens móveis, o limite costuma ser de 180 dias contados da entrega. Havendo garantia dada pelo fabricante, o prazo legal começa depois que essa garantia termina, e o comprador precisa avisar o vendedor assim que descobre o problema. Cobranças e indenizações ligadas ao descumprimento do contrato têm prazos próprios, que variam de três a dez anos conforme o pedido. Vale entender a diferença entre defeito aparente e defeito oculto e conferir os prazos para reclamar de produto com defeito antes de deixar o tempo passar.

O que serve de prova e quem precisa provar

Reúna desde o primeiro dia: nota fiscal, pedido, proposta comercial, contrato, manual e ficha técnica, e-mails e mensagens trocadas com o vendedor, número dos chamados abertos na assistência, ordens de serviço, fotos e vídeos do equipamento com data, registro das paradas de produção e orçamento do conserto.

Na regra do consumidor, o juiz pode determinar que o fornecedor prove que o defeito não existe ou que veio do mau uso — é o que se chama de inversão do ônus da prova. Na regra dos contratos, em geral quem reclama precisa demonstrar o defeito, e por isso o laudo de um técnico independente costuma ser a peça mais importante do caso.

O que o fornecedor costuma alegar

  • Mau uso, operador sem treinamento ou uso acima da capacidade indicada.
  • Instalação feita por terceiro, rede elétrica inadequada ou falta de aterramento.
  • Manutenção preventiva prevista no manual que não foi realizada.
  • Garantia vencida ou perdida por conserto feito fora da rede autorizada.
  • Que a empresa não é consumidora e, por isso, não pode exigir troca nem devolução do dinheiro.
  • Cláusula do contrato limitando a responsabilidade ou prevendo apenas o reparo.

Onde esses casos costumam ser perdidos

Na maioria das vezes o problema não é a lei: é a perda de tempo e de prova. Os erros mais comuns são reclamar só por telefone, sem registro escrito; mandar o equipamento para uma oficina não autorizada e entregar ao fornecedor o argumento perfeito; descartar ou vender o bem antes da perícia; assinar termo de quitação amplo ao aceitar uma troca; e cobrar prejuízo de produção sem apresentar número nenhum que sustente o valor.

O que fazer, na ordem certa

  1. Pare de usar o equipamento e registre o estado dele em fotos e vídeos com data.
  2. Releia o contrato e o certificado de garantia: prazo, cobertura, exclusões e quem deve ser acionado.
  3. Abra chamado na assistência autorizada e guarde o protocolo e a ordem de serviço.
  4. Reclame por escrito com o vendedor, descrevendo o defeito, a data em que apareceu e o que você quer: conserto, troca, devolução ou abatimento.
  5. Se o prazo passar sem solução, envie uma notificação extrajudicial fixando um prazo final e avisando o que fará depois.
  6. Contrate um laudo técnico independente, principalmente se o caso ficar na regra dos contratos.
  7. Some o prejuízo com documento: dias parados, produção perdida, aluguel de máquina substituta, pedido de cliente cancelado.
  8. Com esse material organizado, avalie com um advogado o caminho mais rápido para o seu caso.

Perguntas frequentes

Sou MEI e comprei uma máquina com defeito. Posso usar o Código de Defesa do Consumidor?

Pode haver essa possibilidade, mas não pelo fato de ser MEI. Será necessário demonstrar que você era a parte frágil diante do fornecedor, por falta de conhecimento técnico, contrato sem negociação ou desproporção econômica evidente.

Se a compra foi empresarial, ainda valem os 30 dias para consertar?

Em geral, não. Esse prazo vem da regra do consumidor. Em compra entre empresas, o prazo de reparo é o que estiver no contrato ou na garantia; sem previsão, discute-se o que seria um tempo razoável.

O defeito só apareceu depois de oito meses de uso. Ainda dá para reclamar?

Depende do enquadramento e da garantia. Na regra do consumidor, o prazo conta do dia em que o defeito aparece. Na regra dos contratos, conta da descoberta, com teto de 180 dias da entrega, ressalvado o efeito da garantia dada pelo fabricante.

Posso exigir o dinheiro de volta ou só o conserto?

Na regra do consumidor, passado o prazo de reparo sem solução, a escolha entre troca, devolução e desconto é do comprador. Na regra dos contratos, o caminho comum é devolver o bem e reaver o valor ou ficar com ele e pedir abatimento, quando o defeito compromete o uso do equipamento.

Consigo cobrar o prejuízo da produção parada?

Pode haver esse direito nos dois regimes, mas depende de prova. Será necessário demonstrar com documentos quanto a empresa deixou de faturar por causa da parada, e não apenas estimar um valor.

Fontes oficiais consultadas

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Veja também nosso conteúdo completo sobre Contratos.

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Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

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