Tempo de leitura: 12 min · Atualizado em 03/09/2026
Sim: em regra, a concessionária responde mesmo sem que você precise provar erro dela, porque manter a pista sem buracos e sinalizar qualquer risco faz parte do serviço que você paga no pedágio. Ela só escapa dessa responsabilidade se mostrar que o buraco surgiu há poucos minutos, sem tempo de sinalizar, ou que você contribuiu de forma decisiva para a queda ou a batida.
Por que rodovia com pedágio muda a conta
Quando o buraco está numa rua qualquer, quem responde é a prefeitura, e aí você costuma ter que mostrar que o poder público sabia do problema e não agiu a tempo. Numa rodovia sem pedágio a lógica é parecida. Já numa rodovia concessionada a história muda: você está pagando por um serviço específico, e conservar a pista sem buracos é justamente o que esse pagamento contrata. Não é um favor da concessionária cuidar do asfalto — é a obrigação central dela.
Por isso a concessionária não pode se esconder atrás de “não sabíamos do buraco” com a mesma facilidade que um município. Ela tem monitoramento contínuo, câmeras e obrigação contratual de rondar a pista várias vezes por dia. Se o buraco estava lá e não foi sinalizado nem tapado, a explicação de que ninguém percebeu já não convence sozinha.
O que significa “responder objetivamente” na prática
Responder de forma objetiva quer dizer que você não precisa provar que algum funcionário foi descuidado ou agiu de má-fé. Basta mostrar três coisas: que o buraco existia naquele trecho, que não estava sinalizado de forma visível, e que foi ele quem causou a queda ou o dano no carro. Provar o contrário, ou que não havia como evitar, é tarefa da concessionária.
Isso aproxima o buraco do que já acontece com animal solto numa rodovia com pedágio: em ambos, manter a via livre de obstáculos é parte do pacote pago no pedágio. A diferença é que o buraco costuma ser ainda mais fácil de atribuir à concessionária, por nascer da própria conservação do asfalto, não de um fator externo como um animal fugido de uma propriedade vizinha.
Quando a falta de sinalização pesa ainda mais contra a concessionária
Existe diferença entre um buraco recém-aberto, sem tempo de ser sinalizado, e um buraco antigo, conhecido, que já provocou outras batidas ou reclamações. Quanto mais tempo o problema existe sem solução, mais difícil fica para a concessionária alegar surpresa. Cone caído, placa virada ou sinalização apagada pela chuva também costuma valer como se não houvesse sinalização nenhuma — o motorista não tem obrigação de adivinhar um aviso que não está visível.
Reclamações anteriores sobre o mesmo ponto, notícias de outros acidentes no local ou registros de vistoria ajudam a mostrar que o defeito não era recente, o que pesa bastante em negociação ou na Justiça.
O que pode livrar a concessionária da responsabilidade
A concessionária não é uma seguradora universal para qualquer coisa que aconteça na pista. Ela pode se defender mostrando que o buraco se formou minutos antes do acidente, sem chance de sinalização; que já havia cone, placa ou pisca-alerta visíveis; ou que você trafegava em velocidade muito acima do permitido, usava o celular ou ignorou um aviso claro. Nesses casos, a responsabilidade pode ser afastada ou dividida, conforme o peso da sua própria conduta no resultado — e não qualquer infração isolada no trajeto.
Seu caso envolve uma situação semelhante?
Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.
Se o buraco levou a uma batida com outro carro
Às vezes o buraco não derruba a moto sozinho: faz o motorista frear bruscamente, desviar ou perder o controle e atingir outro veículo. Nesse cenário, mais de um responsável pode entrar na conta. A concessionária responde pela causa raiz — o buraco sem sinalização — enquanto o outro motorista só responde se também tiver contribuído, colado demais ou em velocidade incompatível com o trecho. Você pode cobrar o prejuízo total de qualquer um dos responsáveis, cabendo a eles acertarem depois quem paga qual parte.
O que dá para cobrar da concessionária
A lista de prejuízos recuperáveis costuma incluir conserto do veículo, guincho, transporte alternativo enquanto o seu está na oficina, e desvalorização quando o dano foi estrutural. Havendo ferimento, entram consultas, exames, remédios, fisioterapia e o tempo sem poder trabalhar. Dano moral não é automático: costuma ser reconhecido quando há lesão, internação, sequela ou susto fora do comum — um arranhão sem maiores consequências geralmente não sustenta esse pedido.
| Situação | Quem costuma responder | O que muda |
|---|---|---|
| Buraco em rua de cidade | Prefeitura | Precisa provar que o poder público sabia do problema |
| Buraco em rodovia estadual sem pedágio | Órgão estadual de rodovias | Mesma lógica da prefeitura, aplicada ao estado |
| Buraco em rodovia com pedágio | Concessionária | Responde mesmo sem prova de erro, por ser parte do serviço pago |
| Buraco causado por obra recente sem sinalização | Empreiteira ou órgão responsável pela obra | Depende de quem estava executando o serviço no local |
Provas que decidem o caso
A diferença entre um pedido bem-sucedido e um pedido negado quase nunca está em teoria jurídica: está no que foi registrado no próprio dia do acidente. Sem prova de que o buraco existia e de que não havia sinalização, a palavra do motorista fica sozinha contra a versão da concessionária.
- Fotos e vídeos do buraco, do trecho e da ausência de sinalização, tiradas no local antes de qualquer reparo
- Boletim de ocorrência descrevendo o buraco e o quilômetro exato da rodovia
- Ticket ou comprovante de pagamento do pedágio, mostrando que você estava na via administrada pela concessionária
- Pedido por escrito, o quanto antes, das imagens das câmeras da concessionária no trecho e horário do acidente
- Orçamentos e notas fiscais do conserto, além de laudos médicos em caso de ferimento
- Contato de testemunhas, inclusive outros motoristas que passaram pelo mesmo buraco
Buracos em rodovia costumam ser tapados rapidamente depois de um acidente, e as câmeras guardam imagens por tempo limitado antes de serem sobrescritas. A prova mais forte é a que você conseguir juntar nas primeiras horas — depois disso, o próprio cenário do acidente pode desaparecer.
Passo a passo depois do acidente
- Se estiver em segurança, fotografe o buraco, a pista ao redor e a falta de sinalização antes que alguém mexa no local
- Chame a polícia rodoviária ou registre boletim de ocorrência assim que possível, citando o quilômetro exato
- Guarde o comprovante do pedágio pago naquele trajeto
- Peça por escrito, à concessionária, as imagens de câmeras do trecho e horário do acidente
- Procure atendimento médico mesmo diante de dor leve, para deixar registro
- Reúna orçamentos de conserto em mais de uma oficina antes de fechar qualquer acordo
Quanto tempo você tem para cobrar
Contra a concessionária, o prazo costuma ser de cinco anos, por se tratar de uma relação de consumo — você paga pelo serviço da via. Se o caso envolver também discussão com a sua própria seguradora, esse prazo cai para um ano. Já contra outro motorista que também tenha contribuído para o acidente, o prazo é de três anos. Vale sempre confirmar o prazo específico do seu caso, porque detalhes como acordo assinado ou ação penal em andamento sobre o mesmo fato podem alterar essa contagem.
Diferença entre buraco e outros defeitos da pista
Vale separar o buraco de situações parecidas que também podem envolver a concessionária, como demora no resgate depois de um acidente ou obra mal sinalizada na pista. Cada hipótese tem sua própria linha de prova, mesmo com a concessionária respondendo em mais de uma delas. Quando o acidente termina em morte, o caminho muda bastante, com cálculo próprio para dependentes — tema tratado à parte em acidente fatal em rodovia.
Perguntas frequentes
Preciso provar que a concessionária sabia do buraco?
Não necessariamente. Como o dever de manter a pista em condições seguras é parte do serviço pago no pedágio, basta mostrar que o buraco existia e não estava sinalizado. É a concessionária quem precisa provar que não teve tempo ou meios de evitar o problema.
E se eu não peguei nota do pedágio?
O comprovante ajuda, mas não é indispensável. Boletim de ocorrência com o quilômetro exato, fotos do local e a identificação de qual empresa administra aquele trecho também servem para situar o acidente dentro da rodovia concessionada.
A concessionária pode dizer que eu estava correndo?
Pode alegar isso, mas precisa mostrar que a velocidade teve peso real no acidente, não apenas citar o limite da via. Se o buraco era o motivo direto da queda ou da batida, um excesso moderado de velocidade dificilmente afasta sozinho a responsabilidade dela.
Vale a pena aceitar um acordo rápido oferecido pela concessionária?
Depende do que está sendo coberto. Propostas feitas logo após o acidente muitas vezes chegam antes de você ter orçamento de conserto, laudo médico completo ou clareza sobre gastos futuros. Avaliar com calma, com os documentos em mãos, evita fechar por um valor menor do que o caso realmente comporta.
O caso vai para o Juizado Especial ou para a Justiça comum?
Depende do valor do prejuízo e da complexidade das provas. Casos mais simples, com valores dentro do teto do Juizado, costumam correr por lá; situações com ferimento grave, perícia mais elaborada ou valores altos tendem à Justiça comum.
Se o buraco furou meu pneu mas não causei nenhuma batida, ainda vale reclamar?
Sim. Mesmo sem colisão, o prejuízo com pneu, roda ou suspensão danificados pelo buraco pode ser cobrado da concessionária, desde que fique demonstrado que o defeito da pista foi a causa do dano.
Conclusão: buraco em rodovia com pedágio pesa contra a concessionária
Pagar pedágio compra, entre outras coisas, uma pista sem buracos ou, quando isso não é possível no momento, sinalização visível do risco. Por isso a concessionária costuma responder mesmo sem prova de erro específico, cabendo a ela mostrar que não teve como evitar o problema ou que você contribuiu de forma decisiva para o acidente.
O que decide a maioria dos casos não é teoria, mas o que foi registrado nas primeiras horas: fotos do buraco, boletim com o quilômetro certo, pedido de imagens e orçamentos de conserto. Reunir isso rápido é o que transforma um relato em um caso com chance real de indenização.
Fontes oficiais consultadas
- ANTT — Agência Nacional de Transportes Terrestres, gestão e fiscalização das concessões rodoviárias
- DNIT — Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, manutenção de rodovias federais
- Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon/MJSP) — proteção do consumidor em serviços públicos concedidos
- Ministério da Justiça e Segurança Pública — portal institucional de serviços ao cidadão
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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.
Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.
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