PT EN ES ZH

Fiz um investimento após anúncio de “robô de day trade” nas redes sociais e nunca mais recebi o dinheiro: cabe ação contra a plataforma que veiculou o anúncio?

Compartilhe este post

Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 11 min · Atualizado em 03/09/2026

Depende. O golpista que criou o “robô de day trade” responde diretamente pelo prejuízo, mas costuma ser difícil de localizar ou não ter bens. Já a plataforma que veiculou o anúncio só pode ser cobrada quando fica comprovado que ela falhou em checar, remover ou agir depois de denúncias sobre aquele anúncio específico — não existe responsabilidade automática só por ter exibido a peça publicitária.

Esse golpe segue quase sempre o mesmo roteiro: um anúncio patrocinado aparece no feed prometendo lucro diário alto e garantido com um sistema automático que opera na bolsa ou em criptomoedas sem esforço do investidor. A pessoa clica, cai em um site ou grupo de WhatsApp, transfere um valor inicial, vê um “lucro” fictício crescer na tela e, ao tentar sacar, o acesso trava ou o suporte some. O dinheiro nunca volta.

Por que esse golpe funciona tão bem em anúncios pagos

Diferente de uma postagem orgânica de um golpista qualquer, o anúncio patrocinado passa por um processo de aprovação da própria plataforma antes de ir ao ar, e a empresa recebe dinheiro por exibi-lo para um público segmentado. Esse detalhe importa juridicamente: a plataforma não é uma vitrine passiva, o que coloca sobre ela um dever de cuidado maior do que teria com uma publicação comum de usuário — sem que isso a torne automaticamente responsável por qualquer prejuízo.

A responsabilidade do golpista é a mais direta

Quem criou o esquema, recebeu o dinheiro e sumiu é quem praticou o golpe propriamente dito. Contra essa pessoa (ou empresa de fachada usada por ela) cabe cobrança por enriquecimento sem causa e reparação do prejuízo, além de representação criminal por estelionato. O problema prático é que o golpista raramente é identificável de forma simples: usa laranjas, contas de banco de terceiros, empresas abertas com documentos roubados e, muitas vezes, está fora do país. Por isso, mesmo quando essa via jurídica é a mais “certa” em tese, ela costuma esbarrar na dificuldade de achar alguém para executar a condenação.

Quando a plataforma pode ser chamada a responder

A cobrança contra a rede social que veiculou a peça não é automática. Depende de circunstâncias concretas que mostrem falha de moderação, entre elas:

  • A plataforma já tinha recebido denúncias sobre aquele mesmo anunciante ou anúncio e não removeu em prazo razoável;
  • O anunciante já havia sido banido antes e voltou a anunciar com outra conta, sem que a plataforma tivesse mecanismo eficaz para impedir a reincidência;
  • O anúncio usava, sem autorização, nome e imagem de pessoa famosa ou de instituição financeira real, criando falsa aparência de legitimidade que passou pela checagem da própria plataforma;
  • Havia sinais evidentes de fraude (promessa de rendimento fixo muito acima do mercado, ausência de qualquer registro de instituição financeira) que deveriam ter sido barrados pelas políticas de publicidade da própria empresa.

Sem esses elementos, a alegação de que “a plataforma deixou passar” tende a não ser suficiente sozinha. Milhões de anúncios circulam por dia, e a mera existência de um golpe não prova negligência de quem exibiu o anúncio — o mesmo raciocínio já discutido em casos de quem clicou em anúncio patrocinado de empresa falsa no Google e de compra feita por anúncio falso no Instagram: o que muda o resultado é a prova de falha concreta de checagem, não o fato de o golpe ter existido.

O que ajuda (e muito) a construir o caso

Antes de qualquer ação, vale reunir prova de que o anúncio existiu, de que era pago e de quem o veiculou. A maioria das grandes plataformas mantém uma biblioteca pública de anúncios ativos e já encerrados, que mostra quem pagou, para qual público e por quanto tempo a peça ficou no ar — essa consulta pode ser feita antes mesmo de procurar um advogado. Print da tela, o link do anúncio, comprovantes de transferência, prints da conversa com o “suporte” e o histórico do site ou aplicativo usado formam a base da prova.

Evidência Por que importa
Print e link do anúncio original Mostra que era publicidade paga, não postagem orgânica
Comprovante de PIX ou transferência Prova o valor exato do prejuízo e a data
Prints de conversas com o “suporte” do robô Ajuda a identificar o esquema e eventuais laranjas
Boletim de ocorrência Formaliza o crime e é exigido em praticamente todo processo
Registro de denúncia feita à própria plataforma Comprova que ela foi avisada e teve chance de agir

Passo a passo prático depois de perceber o golpe

  1. Pare qualquer novo depósito imediatamente, mesmo que prometam liberar o saque só depois de mais um aporte — esse pedido extra é parte do golpe;
  2. Salve todas as provas antes que o anúncio ou o perfil sejam apagados;
  3. Registre boletim de ocorrência, de preferência em delegacia especializada em crimes cibernéticos;
  4. Denuncie o anúncio e o perfil diretamente na plataforma, guardando o protocolo da denúncia;
  5. Comunique o banco ou a instituição de pagamento usada na transferência, pedindo bloqueio cautelar do valor quando ainda for possível;
  6. Procure um advogado para avaliar se há elementos concretos contra a plataforma, além da ação contra o golpista.

Banco e instituição de pagamento também entram na conversa

Se o valor saiu por PIX ou cartão, o banco ou a maquininha de pagamento usada pelo golpista também pode ter responsabilidade, especialmente quando a conta de destino já tinha histórico de reclamações de fraude e continuou recebendo transferências sem bloqueio. Esse caminho costuma ser mais rápido que a cobrança da rede social, porque o sistema bancário tem mecanismos de devolução em casos de fraude comprovada logo após a operação.

Seu caso envolve uma situação semelhante?

Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.

Entrar em contato pelo WhatsApp

Diferença entre esse caso e o golpe divulgado por influenciador

Não confunda duas situações parecidas. Quando um influenciador divulga voluntariamente um esquema fraudulento, recebendo cachê para promovê-lo em suas próprias postagens, a responsabilidade recai primeiro sobre quem fez a divulgação, como já tratamos em outro caso sobre influenciador que fez propaganda de um golpe. Já quando o golpe chega por um anúncio pago comprado diretamente pelo golpista junto à plataforma, sem criador de conteúdo envolvido, o foco muda para o dever de checagem da própria empresa de tecnologia — tese distinta e mais delicada de provar.

Contas invadidas para vender falsos investimentos

Um cenário relacionado, mas diferente, é quando o próprio perfil de uma vítima é invadido e passa a divulgar o golpe para os contatos dela, como em casos de conta do Instagram hackeada e usada para vender falsos investimentos. Ali a discussão gira em torno da falha de segurança da plataforma em proteger a conta, não da checagem de um anúncio pago — são teses jurídicas diferentes, ainda que o resultado final se pareça.

E se o golpe envolveu criptomoedas?

Muitos desses “robôs” prometem operar com criptoativos em vez de ações. A lógica não muda: o golpista responde diretamente, e a corretora usada para movimentar o dinheiro só entra na conversa se tiver falhado em algum controle próprio, como em disputas sobre corretora que bloqueia saque de criptomoedas. A diferença é que rastrear criptoativos costuma ser tecnicamente mais complexo do que uma transferência bancária comum.

Quanto tempo dá para agir

Não existe prazo único para tudo. Contra o golpista, a reparação por prejuízo financeiro costuma poder ser cobrada por vários anos após o fato, mas quanto antes a ação for ajuizada, maior a chance de ainda existir algum bem para penhorar. Já a queixa criminal por estelionato tem prazo próprio, contado geralmente a partir do momento em que a vítima descobre quem foi o autor — por isso o boletim de ocorrência não deve ser adiado. Um advogado consegue calcular com precisão o que ainda está dentro do prazo no seu caso.

Perguntas frequentes

Vale a pena processar a plataforma mesmo sem saber quem é o golpista?

Sim, desde que existam indícios de falha de moderação. Mas o caso fica mais forte quando a vítima também reúne o máximo de informação sobre quem aplicou o golpe, ainda que seja só o link do site ou o número usado no contato.

A plataforma é obrigada a devolver o dinheiro só por ter exibido o anúncio?

Não. A devolução automática só existe em situações raras, normalmente ligadas a políticas comerciais da própria empresa. Juridicamente, é preciso provar falha concreta de checagem ou de resposta a denúncias, não apenas que o anúncio existiu e era falso.

Denunciar o anúncio dentro da própria plataforma ajuda em algo?

Ajuda bastante, mesmo que o anúncio não seja removido na hora. O protocolo da denúncia vira prova de que a empresa foi avisada e teve chance de agir, o que pesa a favor da vítima caso o caso vá à Justiça depois.

É melhor processar o banco, a plataforma ou o golpista primeiro?

Não precisa escolher só um caminho. É comum buscar o estorno junto ao banco, denunciar à plataforma e formalizar o boletim de ocorrência contra o golpista ao mesmo tempo. Um advogado avalia quais frentes têm mais chance de trazer resultado no seu caso.

Perdi um valor pequeno, ainda assim compensa agir?

Mesmo prejuízos menores podem ser levados ao Juizado Especial Cível, que tem custo baixo ou nenhum para a vítima. Vale considerar também o tempo e o desgaste causados pelo golpe na hora de decidir se compensa seguir adiante.

Conclusão: prove a falha, não apenas o prejuízo

Perder dinheiro para um “robô de day trade” anunciado nas redes é, antes de tudo, crime praticado por quem criou o esquema. A plataforma que exibiu o anúncio só entra na conta quando há prova de que ela falhou em checar, remover ou agir diante de denúncias sobre aquele anúncio específico — e essa prova é o que decide se a ação tem chance real de sucesso.

Reunir print do anúncio, comprovantes de pagamento e protocolo de denúncia à plataforma logo depois de perceber o golpe faz toda a diferença. Um advogado pode avaliar, caso a caso, quais frentes (golpista, banco, plataforma) realmente têm elementos para seguir adiante.

Fontes oficiais consultadas

Artigos relacionados

Veja também nosso conteúdo completo sobre direito digital.

Seu caso envolve uma situação semelhante?

Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.

Entrar em contato pelo WhatsApp

Leia também

Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

Siga @phelipecardosoadv no Instagram →

Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

Precisa de orientação sobre o seu caso?

Fale com o escritório  ·  Conheça o PHC Advogados  ·  Ver outros artigos

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do seu caso por um advogado.

Se inscreva em nossa Newslatter

Fique atualizado e por dentro de tudo que acontece no direito

Outras postagens

Scroll to Top
Rolar para cima