Tempo de leitura: 11 min · Publicado em 04/09/2026
Quando uma seguradora nega cobertura de D&O a diretor, administrador, conselheiro ou gerente, é necessário verificar se a reclamação decorre de ato de gestão praticado no exercício do cargo, se a pessoa estava abrangida pela definição de segurado e se a exclusão invocada realmente se aplica. O seguro D&O existe justamente para proteger o patrimônio pessoal de executivos expostos a responsabilização civil, administrativa ou arbitral decorrente de decisões de gestão. A SUSEP reconhece que custos de defesa, honorários, penhora on-line, indisponibilidade de bens, multas civis, danos morais e gerenciamento de crise podem ser oferecidos como coberturas adicionais. A negativa precisa ser específica e não pode transformar qualquer acusação de má-fé em prova definitiva de dolo.
O que o seguro D&O protege?
O seguro de responsabilidade civil de diretores e administradores protege pessoas físicas que exercem funções de gestão contra consequências patrimoniais de reclamações relacionadas a seus atos de administração.
Normalmente a empresa contrata a apólice em benefício de seus administradores, mas a contratação também pode ser feita pela própria pessoa física.
A cobertura principal pode envolver indenizações devidas a terceiros e, conforme o produto, despesas de defesa e outras extensões.
Quem pode ser considerado segurado?
Diretores estatutários, administradores, conselheiros, gerentes e outros executivos podem estar incluídos, dependendo da definição contratual.
Algumas apólices também abrangem administradores de subsidiárias, coligadas, diretores independentes, aposentados e até herdeiros ou espólio em situações específicas.
Quando a negativa afirma que a pessoa “não era segurada”, é necessário conferir a função exercida na data do ato e a redação da apólice.
Atos de gestão de má-fé estão cobertos?
Em regra, atos dolosos ou praticados de má-fé são excluídos. O seguro não pode funcionar como proteção para conduta ilícita deliberada.
Entretanto, uma acusação de fraude, abuso ou desvio não prova automaticamente que o executivo agiu dolosamente. Muitas reclamações começam com alegações graves que ainda serão discutidas.
A apólice deve indicar em que momento a exclusão por dolo se torna aplicável e como ficam custos de defesa pagos antes de eventual decisão definitiva.
Custos de defesa estão incluídos?
Frequentemente são oferecidos como cobertura adicional e, em alguns produtos, assumem importância central. Podem incluir honorários advocatícios, perícias, depósitos recursais, fianças e outras despesas.
O segurado deve verificar se existe liberdade de escolha do advogado, necessidade de aprovação prévia de orçamento e limite próprio para defesa.
Se a seguradora se recusa a autorizar advogado em uma reclamação urgente, preserve a negativa e as razões pelas quais a defesa precisava ser iniciada imediatamente.
Penhora e indisponibilidade de bens podem estar cobertas?
Algumas apólices oferecem extensões destinadas a custos relacionados a penhora on-line ou indisponibilidade de bens de executivos.
Isso não significa que a seguradora “pague a penhora” sem limites. O alcance depende do produto, do evento e das condições contratadas.
Em processos regulatórios ou empresariais de alto valor, essa cobertura pode ser economicamente muito relevante.
A empresa também pode ser coberta?
Alguns seguros oferecem a chamada Entity Coverage, extensão que abrange determinadas reclamações dirigidas contra a própria sociedade em razão de atos de gestão.
Sem essa extensão, o fato de a empresa ser ré no mesmo processo não significa que todos os custos da pessoa jurídica estejam cobertos.
É importante separar despesas da empresa e dos administradores.
Reclamação administrativa também pode acionar D&O?
Pode. A SUSEP admite estrutura de cobertura relacionada a responsabilização judicial, arbitral e, em determinados produtos, administrativa.
Investigações de órgãos reguladores, processos sancionadores e outras medidas podem gerar custos de defesa antes de qualquer ação indenizatória.
Seu caso envolve uma situação semelhante?
Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.
O conceito de reclamação previsto na apólice é decisivo para saber quando o sinistro deve ser avisado.
O que é data retroativa?
Apólices D&O frequentemente funcionam sob regime de reclamação. A data do ato de gestão, a data retroativa e a data da reclamação precisam ser analisadas em conjunto.
Um ato praticado antes da contratação pode estar coberto se estiver dentro do período retroativo e se a reclamação surgir durante a vigência, conforme as condições.
Ao trocar de seguradora, a continuidade da retroatividade merece atenção especial.
A seguradora pode negar porque o executivo já sabia do problema?
Pode existir exclusão para circunstâncias conhecidas antes da contratação. A lógica é evitar que o seguro seja adquirido depois que a reclamação já se tornou previsível.
O ponto controvertido costuma ser definir quando o executivo efetivamente tinha conhecimento suficiente de uma circunstância capaz de gerar reclamação.
Conhecimento genérico de dificuldade empresarial não é necessariamente igual a ciência de uma reclamação iminente.
É possível fazer acordo sem a seguradora?
Normalmente não é recomendável. Seguros de responsabilidade civil costumam exigir anuência da seguradora para acordos que pretendam ser reembolsados.
Se o executivo reconhece responsabilidade e paga diretamente sem comunicar, pode gerar discussão sobre perda da cobertura.
Em urgência, comunique a seguradora e peça manifestação expressa antes de concluir o acordo.
Quais documentos reunir após a negativa?
- apólice e endossos;
- documento que comprova o cargo;
- notificação, processo ou investigação;
- carta de negativa;
- comunicações anteriores à contratação;
- histórico de aviso do sinistro;
- orçamentos e contratos de defesa;
- documentos que demonstrem a natureza do ato de gestão.
Como contestar a seguradora?
A contestação deve atacar a exclusão utilizada. Se a recusa afirma dolo, é necessário perguntar qual prova sustenta essa conclusão. Se a questão é temporal, reconstrua ato, retroatividade e reclamação.
A nova Lei do Contrato de Seguro reforça interpretação restritiva de exclusões e atribui à seguradora o ônus de provar os fatos que sustentam a exclusão.
Em casos de alto valor, a discussão securitária deve caminhar paralelamente à estratégia de defesa principal.
Investigação interna da empresa pode acionar a cobertura?
Depende da definição de reclamação e das extensões contratadas. Algumas apólices cobrem apenas reclamações externas formais; outras contemplam determinadas investigações, procedimentos regulatórios ou custos relacionados à apuração.
Se a empresa inicia investigação porque recebeu denúncia interna ou comunicação de órgão público, o executivo deve verificar se esse fato já precisa ser comunicado à seguradora. O atraso no aviso pode gerar discussão posterior.
É recomendável preservar atas, comunicações do conselho, notificações e documentos que indiquem quando a pessoa tomou ciência concreta do problema.
Renúncia ao cargo elimina a cobertura?
Não necessariamente. O seguro pode proteger ex-administradores por atos praticados durante o período em que exerciam a função, especialmente quando a reclamação surge posteriormente e a apólice possui retroatividade e prazo complementar adequados.
Por isso, sair da empresa não encerra automaticamente a exposição. Um processo pode surgir anos depois, envolvendo decisão tomada durante a gestão.
Executivos que deixam o cargo devem conferir se haverá continuidade de cobertura ou período estendido para reclamações.
Fusão, aquisição ou mudança de controle afetam o D&O?
Podem afetar de forma importante. Operações societárias podem alterar quem é considerado segurado, quais atos antigos permanecem cobertos e se a apólice entra em período de run-off.
Em aquisição, por exemplo, atos anteriores ao fechamento podem continuar sob a apólice antiga, enquanto atos posteriores passam a outro programa de seguro.
Esse ponto deve ser analisado na própria operação societária, e não apenas depois que surgir a reclamação.
Existe cobertura para crises reputacionais?
Algumas apólices oferecem despesas de publicidade ou gerenciamento de crise. Essa extensão pode financiar consultoria especializada quando uma reclamação contra o executivo gera exposição pública relevante.
Não é cobertura automática. Limites, fornecedores aprovados e gatilhos precisam ser conferidos.
Em investigações regulatórias ou escândalos corporativos, essa proteção pode ter valor financeiro e estratégico significativo.
O D&O pode cobrir o cônjuge do administrador?
Alguns produtos estendem proteção a bens do cônjuge ou companheiro quando eles são atingidos apenas em razão da responsabilidade imputada ao executivo segurado.
Isso não transforma o cônjuge em segurado para atos próprios. A extensão normalmente existe para proteger patrimônio compartilhado diante de medidas derivadas da reclamação contra o administrador.
Também é importante verificar se a apólice possui limite agregado anual e se outras reclamações já consumiram parte dele. Em programas com vários administradores, uma investigação anterior pode reduzir o saldo disponível para custos de defesa de reclamações posteriores.
Quando a seguradora reconhece apenas parte da cobertura, peça discriminação entre custos já consumidos, franquia, sublimites e valores ainda disponíveis.
Em empresas com programa global de seguros, verifique ainda se a apólice local depende de cobertura master no exterior, porque diferenças de jurisdição e limites podem afetar a resposta ao sinistro.
Perguntas frequentes
D&O cobre qualquer diretor?
Somente as pessoas enquadradas na definição de segurado da apólice.
Dolo é coberto?
Em regra, não. Mas mera acusação não equivale automaticamente à prova definitiva de dolo.
Honorários de advogado podem ser pagos?
Sim, quando existe cobertura de custos de defesa e dentro dos limites contratados.
Processo administrativo pode estar coberto?
Pode, conforme a definição de reclamação e as extensões da apólice.
A empresa também recebe cobertura?
Somente quando houver extensão específica, como Entity Coverage, ou outra previsão contratual.
Posso trocar de seguradora sem perder proteção por atos antigos?
É necessário preservar retroatividade e analisar prazos complementares para evitar lacunas.
Conclusão: D&O deve ser analisado como proteção patrimonial do executivo, não como seguro genérico da empresa
A validade da negativa depende de quem era segurado, qual ato originou a reclamação, quando ele ocorreu e quais coberturas adicionais foram contratadas.
Em processos de alto valor, custos de defesa e proteção patrimonial podem ser tão relevantes quanto a indenização final. Por isso, uma recusa de D&O merece análise imediata e documental.
Fontes oficiais consultadas
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Seu caso envolve uma situação semelhante?
Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.
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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.
Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.
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