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Infiltração e rachaduras em imóvel novo: quem paga o conserto?

rachadura fina em parede recem-pintada de apartamento

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 9 min · Atualizado em 08/08/2026

Imóvel novo com infiltração, rachadura, mofo, piso soltando, esquadria que não veda ou instalação elétrica inadequada é um dos problemas mais desgastantes que existem — e um dos que mais gera dúvida sobre prazos, porque existem regimes diferentes convivendo.

De um lado, a responsabilidade do construtor pela solidez e segurança da obra, com garantia legal de cinco anos contados da entrega. De outro, as regras de proteção do consumidor, com prazos próprios para vícios aparentes e ocultos. E, ainda, os prazos previstos nos manuais do proprietário, que variam conforme o sistema construtivo.

Os três regimes e como eles se combinam

Solidez e segurança. Problemas estruturais — fundação, estrutura, elementos que comprometem a estabilidade — têm garantia legal de cinco anos a partir da entrega. Trata-se de garantia mínima, e o prazo para propor a ação é contado a partir do aparecimento do defeito dentro desse período.

Vícios de qualidade. Problemas que não comprometem a estrutura mas afetam o uso — vazamento, revestimento, acabamento, esquadrias, impermeabilização. Aqui aplicam-se as regras de proteção ao consumidor, com prazo de reclamação contado da entrega, no caso de vício aparente, ou do momento em que o defeito se torna evidente, no caso de vício oculto.

Fato do produto. Quando o defeito causa dano à saúde ou à segurança — queda de revestimento, choque elétrico, desabamento parcial —, o prazo é de cinco anos contados do conhecimento do dano e de sua autoria.

Problema Regime Observação
Fissura estrutural, recalque de fundação Solidez e segurança Garantia de 5 anos
Infiltração em laje ou fachada Vício de qualidade Frequentemente oculto
Mofo por falha de impermeabilização Vício de qualidade Prova pericial
Revestimento que se solta e fere alguém Fato do produto Prazo de 5 anos
Acabamento com defeito visível na entrega Vício aparente Reclamar de imediato
Desgaste natural sem manutenção Fora da garantia Manual do proprietário

A vistoria de entrega e o erro de assinar sem ressalva

No momento do recebimento das chaves, é comum assinar termo declarando que o imóvel está em perfeitas condições. Esse documento é usado depois para sustentar que os vícios aparentes foram aceitos.

A conduta correta é fazer a vistoria com calma, preferencialmente acompanhado por profissional, testar tudo — torneiras, descargas, tomadas, interruptores, janelas, portas, ralos — e anotar cada pendência no próprio termo, antes de assinar. Fotografar cada item com data completa o registro.

Vale lembrar que vício oculto, aquele que não podia ser percebido na vistoria, não é atingido pela assinatura do termo. Infiltração que só aparece na primeira chuva forte é o exemplo clássico.

A prova que decide: o laudo pericial

Diferentemente de outros temas, aqui a discussão é essencialmente técnica, e a percepção do morador não basta. O documento central é o laudo de engenharia, elaborado por profissional habilitado, com registro de responsabilidade técnica, que identifique:

  • A causa do problema — falha de projeto, de execução, de material ou de manutenção.
  • A extensão e a evolução, com registro fotográfico datado.
  • O custo estimado de reparação.
  • A relação entre o vício e o comportamento do imóvel, afastando causas externas.

Sem esse documento, a construtora sustentará que o problema decorre de manutenção inadequada, de reforma feita pelo morador ou de uso impróprio — e a discussão se resolverá por perícia judicial, mais demorada.

O que a construtora vai alegar

A primeira tese é a ausência de manutenção preventiva prevista no manual do proprietário: limpeza de calhas, revisão de rejuntes, recuperação de pintura, verificação de impermeabilização. É argumento sério, e por isso guardar comprovantes de manutenção é relevante.

A segunda é o desgaste natural, aplicável a itens de vida útil limitada.

A terceira é a reforma feita pelo morador, especialmente quando houve intervenção em áreas molhadas ou em estrutura.

A quarta é o decurso do prazo, com discussão sobre a data de início da contagem — razão pela qual registrar formalmente a primeira manifestação do defeito é tão importante.

A quinta é o fortuito externo, como chuvas excepcionais.

Quando cabe dano moral

Vício construtivo é, em essência, problema patrimonial: o pedido natural é a reparação ou o custo dela. O dano moral depende de repercussão específica:

  • Imóvel inabitável ou com uso significativamente comprometido.
  • Risco à saúde: mofo com repercussão respiratória documentada, especialmente em crianças e pessoas idosas.
  • Risco à segurança: fissura estrutural ativa, queda de material, instalação elétrica perigosa.
  • Necessidade de desocupar o imóvel para obras prolongadas.
  • Recusa persistente de reparo, com sucessivas visitas técnicas sem solução.
  • Perda de bens por alagamento ou infiltração.

A fronteira é a de dano moral e mero aborrecimento.

Valor e prazo

Elevam o patamar: comprometimento da habitabilidade, risco estrutural, repercussão na saúde comprovada, duração do problema, necessidade de desocupação e recusa reiterada de reparo. Reduzem: reparo espontâneo e adequado, problema de pequena monta, ausência de manutenção pelo morador e existência de reforma que possa ter contribuído.

Sobre o método de fixação, veja como o valor do dano moral é calculado; sobre o prazo, prazo para pedir dano moral.

O que fazer, em ordem

  1. Registre o defeito por escrito assim que aparecer, com fotografias datadas. Isso fixa o marco temporal.
  2. Comunique formalmente a construtora, pelo canal de assistência técnica, e guarde o protocolo.
  3. Exija laudo de cada visita técnica realizada.
  4. Contrate laudo de engenharia independente se a construtora negar o vício.
  5. Guarde comprovantes de manutenção preventiva, que afastam a principal tese de defesa.
  6. Documente os prejuízos: bens danificados, despesas com reparo emergencial, hospedagem durante obras.
  7. Se o problema atinge área comum, articule com o condomínio: a ação coletiva do condomínio costuma ser mais eficaz.
  8. Registre reclamação na plataforma pública de mediação de consumo.

Para os requisitos gerais da reparação, veja o guia completo sobre dano moral.

Vícios em área comum: a via do condomínio

Boa parte dos problemas estruturais não atinge apenas uma unidade: fachada com infiltração, garagem com trincas, caixa d’água com vazamento, elevador com falha recorrente. Nesses casos, a legitimidade para exigir a reparação é do condomínio, e a atuação coletiva costuma ser muito mais eficaz do que ações individuais isoladas.

O caminho passa por três etapas. Primeiro, deliberação em assembleia autorizando a contratação de laudo técnico e o ajuizamento da ação. Segundo, produção de laudo abrangente, que mapeie todas as patologias e quantifique o custo global de reparação. Terceiro, notificação formal da construtora, que muitas vezes já resolve, porque o custo reputacional de um litígio com o condomínio inteiro é alto.

Um detalhe importante: os prazos de garantia correm igualmente para o condomínio, e a demora em convocar a assembleia consome tempo precioso. Quando as primeiras patologias aparecem, vale registrar formalmente a ocorrência junto à construtora imediatamente, ainda antes de reunir a assembleia, para preservar o marco temporal.

Manutenção preventiva: o que o morador precisa fazer

Vale enfrentar honestamente o outro lado da questão. O manual do proprietário, entregue com o imóvel, estabelece rotinas de manutenção cuja inobservância pode efetivamente afastar a garantia — e as construtoras invocam isso com frequência e, muitas vezes, com razão.

As rotinas mais relevantes envolvem a verificação periódica de rejuntes e vedações em áreas molhadas, a limpeza de ralos e calhas, a revisão da impermeabilização de sacadas e boxes, a manutenção de esquadrias e a inspeção de instalações. São tarefas simples, de custo baixo, e que fazem enorme diferença na discussão posterior.

A recomendação prática é manter um registro simples: datas, serviços realizados, notas fiscais de materiais e de prestadores. Esse histórico transforma a defesa mais comum da construtora — a de que o morador não cuidou do imóvel — em argumento sem sustentação.

Perguntas frequentes

Qual é o prazo de garantia da obra?

Há garantia legal de cinco anos pela solidez e segurança, além dos prazos de vício aplicáveis às relações de consumo e dos prazos do manual do proprietário para cada sistema.

Assinei o termo de vistoria sem apontar nada. Perdi o direito?

Quanto a vícios aparentes, a posição fica difícil. Vícios ocultos, que só se manifestam depois, não são atingidos pela assinatura.

Preciso de laudo de engenheiro?

É altamente recomendável. A discussão é técnica, e sem laudo a defesa por falta de manutenção tende a prevalecer.

Infiltração vindo do apartamento de cima: quem responde?

Depende da origem. Se for tubulação de área comum ou vício construtivo, responde o condomínio ou a construtora; se for instalação privativa ou reforma do vizinho, responde ele.

A construtora quer fazer o reparo. Devo aceitar?

Em regra sim, é o caminho mais rápido. Documente o antes e o depois e não assine quitação ampla antes de confirmar que o problema não retornou.

Fontes oficiais consultadas

Este conteúdo foi elaborado com apoio nas seguintes fontes primárias:

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Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do seu caso por um advogado.

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