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Condômino antissocial e multas: quando o condomínio pode punir

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 11 min · Atualizado em 04/09/2026

O condomínio pode, sim, punir quem descumpre seus deveres — mas dentro de um sistema graduado que muita gente desconhece. São três níveis: multa de até cinco vezes o valor da cota para o descumprimento de deveres específicos, por deliberação de dois terços dos condôminos restantes quando a convenção nada prevê; multa de até cinco vezes por descumprimento reiterado, com quórum de três quartos; e multa de até dez vezes o valor da cota para o condômino de comportamento antissocial reiterado, que gera incompatibilidade de convivência.

Cada nível tem base legal, quórum e pressupostos próprios. Errar o quórum ou pular o direito de defesa costuma resultar em anulação da penalidade. Veja como o sistema funciona na prática. Conteúdo informativo, que não substitui a análise do seu caso por um advogado.

Quais são os deveres do condômino?

Resposta direta: o art. 1.336 do Código Civil impõe quatro deveres: contribuir para as despesas na proporção das frações ideais; não realizar obras que comprometam a segurança da edificação; não alterar a forma e a cor da fachada, das partes e esquadrias externas; e dar às suas partes a mesma destinação do edifício, sem usá-las de maneira prejudicial ao sossego, à salubridade e à segurança dos demais, ou aos bons costumes.

O quarto dever é o mais invocado no dia a dia. Barulho excessivo, uso comercial de unidade residencial, acúmulo de lixo, agressividade, animais em situação irregular e obras que perturbam a rotina do prédio se enquadram nessa moldura.

Repare que o dispositivo fala em “possuidores”, e não apenas em proprietários. Inquilinos e ocupantes também estão sujeitos aos deveres e podem ser alcançados pelas penalidades, o que costuma surpreender.

Qual é a multa por descumprir esses deveres?

Resposta direta: pelo art. 1.336, §2º, o condômino que descumprir os deveres dos incisos II a IV pagará a multa prevista na convenção ou em assembleia. Não havendo previsão, a assembleia deliberará, por dois terços dos condôminos restantes, multa de até cinco vezes o valor das contribuições, conforme a gravidade das faltas e a reiteração.

É essencial não confundir essa multa com a multa moratória de 2% por atraso no pagamento. São penalidades distintas, com fundamentos e limites próprios. A de 2% pune a mora; esta pune a conduta.

Também vale destacar a expressão “conforme a gravidade das faltas e a reiteração”. A multa não é valor fixo automático: exige dosimetria. Aplicar o teto na primeira ocorrência, sem gradação, é decisão vulnerável.

E o descumprimento reiterado dos deveres?

Resposta direta: o art. 1.337, caput, prevê que o condômino ou possuidor que não cumpre reiteradamente seus deveres pode, por deliberação de três quartos dos condôminos restantes, ser constrangido a pagar multa correspondente até ao quíntuplo do valor da cota, independentemente das perdas e danos que se apurem.

A palavra-chave é reiteradamente. Não se trata de um episódio isolado, mas de conduta repetida, documentada, já advertida. Sem esse histórico, falta o pressuposto legal.

Atenção ao quórum: três quartos dos condôminos restantes, isto é, excluído o infrator da base de cálculo. Trocar esse quórum pelo de dois terços do art. 1.336, §2º, é um erro frequente e suficiente para invalidar a deliberação.

Quem é o condômino antissocial?

Resposta direta: é aquele que, pelo reiterado comportamento antissocial, gera incompatibilidade de convivência com os demais condôminos ou possuidores. O parágrafo único do art. 1.337 permite que ele seja constrangido a pagar multa correspondente ao décuplo do valor da cota, até ulterior deliberação da assembleia.

É a penalidade mais severa prevista no Código Civil para o condomínio edilício, e por isso mesmo a que exige maior rigor procedimental. Não basta desconforto ou antipatia: a lei exige incompatibilidade de convivência, um patamar elevado, aferido por comportamento reiterado e documentado.

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A expressão “até ulterior deliberação da assembleia” indica que a penalidade tem caráter continuado e revisável, podendo cessar quando a conduta cessa.

Tabela: níveis de penalidade no condomínio

Situação Multa Quórum Base legal
Atraso no pagamento Até 2% mais juros Não se aplica Art. 1.336, §1º
Descumprimento dos deveres II a IV Até 5x a cota 2/3 dos restantes, se a convenção silencia Art. 1.336, §2º
Descumprimento reiterado Até 5x a cota 3/4 dos restantes Art. 1.337, caput
Comportamento antissocial Até 10x a cota 3/4 dos restantes Art. 1.337, parágrafo único

O condômino tem direito de defesa antes de ser multado?

Resposta direta: sim. O STJ exige prévia notificação e oportunidade efetiva de defesa antes da imposição das sanções dos arts. 1.336, §2º, e 1.337, sob pena de nulidade da deliberação.

Na prática, isso significa: notificação escrita descrevendo os fatos concretos, prazo razoável para defesa, inclusão do tema na pauta da convocação da assembleia e registro em ata da apreciação dos argumentos apresentados. Multa aplicada por decisão isolada do síndico, sem assembleia e sem defesa, é vulnerável a anulação.

Esse cuidado protege o próprio condomínio. Uma penalidade anulada judicialmente costuma vir acompanhada de condenação em honorários e, às vezes, em danos morais — prejuízo que recai sobre todos os condôminos. Os limites do poder do síndico e da assembleia estão detalhados no artigo sobre direitos e deveres no condomínio.

É possível expulsar um condômino do prédio?

Resposta direta: é tema controvertido. O Código Civil não prevê expressamente a exclusão do condômino proprietário, e a doutrina admite a discussão apenas em situações extremas, esgotadas as sanções pecuniárias e mediante decisão judicial, jamais por ato da assembleia.

A propriedade é direito constitucionalmente protegido, e sua privação exige base legal específica. O STJ não firmou tese autorizando a exclusão do condômino proprietário com base direta no art. 1.337 — o tema aparece nos julgados como corrente doutrinária mais severa, e não como orientação consolidada. Qualquer conteúdo que afirme categoricamente existir “direito de expulsar o condômino” simplifica indevidamente uma questão em aberto.

Situação diferente é a do ocupante não proprietário. Tratando-se de inquilino, o caminho natural é a rescisão da locação por infração contratual, com posterior despejo, medida discutida no artigo sobre ação de despejo.

Como o condomínio deve documentar a infração?

Resposta direta: com registro objetivo e datado: livro de ocorrências, comunicações escritas, boletins de ocorrência quando cabível, laudos, imagens de câmeras dentro dos limites legais e atas que descrevam os fatos com precisão.

Um erro comum é redigir advertências genéricas: “perturbação do sossego” sem data, horário, descrição ou testemunha. Documentos assim não sustentam a penalidade em juízo. Descreva fatos, não adjetivos.

Atenção também à privacidade. O uso de imagens e de dados dos moradores deve respeitar a legislação de proteção de dados e as áreas em que a captação é admitida, evitando que a prova se transforme em novo problema jurídico.

Roteiro seguro de aplicação da multa

Resposta direta: registro, advertência, notificação, defesa, deliberação e lançamento discriminado.

  1. Registre a ocorrência com data, horário, descrição objetiva e identificação de quem reclamou.
  2. Reúna prova: livro de ocorrências, relatórios de portaria, imagens das áreas comuns, boletins de ocorrência e testemunhos.
  3. Advirta formalmente por escrito, com prazo para cessar a conduta.
  4. Notifique em caso de reincidência, indicando o dispositivo da convenção ou do regimento violado, os fatos e as provas.
  5. Abra prazo para defesa escrita — etapa indispensável para a validade da sanção.
  6. Delibere com o quórum correto: previsão da convenção para a multa do art. 1.336, § 2º; três quartos dos condôminos restantes para as do art. 1.337.
  7. Comunique o resultado e lance a multa em rubrica destacada na cota, nunca embutida.

Esse roteiro parece excessivo, mas é ele que sustenta a penalidade quando ela é questionada. A jurisprudência exige notificação prévia e oportunidade de defesa antes das sanções mais graves, e punições aplicadas sem contraditório costumam ser anuladas, com condenação do condomínio.

Expulsão do condômino: o limite do sistema

Resposta direta: não há previsão legal de expulsão, e o tema é objeto de intensa controvérsia.

O art. 1.337 prevê multas progressivas, mas não autoriza expressamente a exclusão do condômino antissocial da unidade. Existe corrente doutrinária que sustenta essa possibilidade em casos extremos, com base na função social da propriedade e na dignidade dos demais moradores, e há decisões isoladas nesse sentido em tribunais estaduais.

Não se pode afirmar, porém, que exista tese consolidada do Superior Tribunal de Justiça autorizando genericamente a expulsão do proprietário. Trata-se de matéria em construção, e conteúdos que apresentam a exclusão como solução disponível simplificam indevidamente um debate delicado.

O que é seguro afirmar: as multas dos arts. 1.336, § 2º, e 1.337 são exigíveis e, somadas, podem alcançar valores muito expressivos; a inadimplência delas autoriza cobrança judicial; e o condomínio pode buscar, por ação própria, obrigação de fazer e de não fazer contra a conduta específica, com multa diária.

Quando o infrator é inquilino, existe caminho mais direto: o descumprimento do regimento interno é infração contratual e pode fundamentar o despejo, com legitimidade do proprietário. Por isso, notificar formalmente o locador é medida frequentemente mais eficaz do que multar o ocupante.

Perguntas frequentes sobre multas e condômino antissocial (FAQ)

1. Qual é a multa máxima para o condômino antissocial?

Até dez vezes o valor da cota condominial, conforme o parágrafo único do art. 1.337 do Código Civil, mediante deliberação qualificada da assembleia.

2. Qual o quórum para aplicar a multa do art. 1.337?

Três quartos dos condôminos restantes, isto é, excluído o infrator do cálculo. Para a multa do art. 1.336, §2º, na ausência de previsão convencional, o quórum é de dois terços dos restantes.

3. O síndico pode multar sozinho?

Somente quando a convenção prevê a penalidade e o procedimento. As multas dos arts. 1.336, §2º, e 1.337 dependem de deliberação assemblear com o quórum legal.

4. Preciso ser avisado antes de receber a multa?

Sim. A notificação prévia e a oportunidade de defesa são exigidas pela jurisprudência, especialmente nas penalidades mais graves, sob pena de nulidade.

5. Inquilino também pode ser multado?

Sim. O art. 1.336 alcança possuidores, e o art. 1.337 menciona expressamente o possuidor, o que inclui o locatário e demais ocupantes.

Fontes oficiais consultadas

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Sobre o autor

Phelipe Cardoso, advogado do PHC Advogados - Experiencia, Estrategia, Compromisso
Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reunião no escritório

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Phelipe Cardoso é advogado e fundador do PHC Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos de comunicação, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.


Entrevistas, artigos e análises jurídicas em veículos de comunicação.

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