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Home office híbrido: a empresa é obrigada a reembolsar despesas de internet, energia e estrutura do empregado?

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Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 11 min · Atualizado em 04/09/2026

Não existe uma obrigação automática e genérica de a empresa pagar por tudo. A lei manda que o assunto seja combinado por escrito entre empresa e empregado, definindo quem paga o quê. Quando esse acordo não existe ou é omisso, a tendência da Justiça do Trabalho é entender que o empregado não pode arcar sozinho com o que é indispensável para prestar o serviço.

Home office híbrido também precisa de acordo por escrito

O modelo híbrido — parte da semana no escritório, parte em casa — é tratado pela legislação trabalhista da mesma forma que o home office integral. Não existe uma “categoria intermediária” com regras próprias: o contrato de trabalho (ou um aditivo específico) deve deixar claro quais dias serão remotos e, principalmente, como ficam as despesas geradas por esse arranjo.

Sem esse documento assinado, a empresa fica mais exposta, não porque a lei exija reembolso automático, mas porque a ausência de previsão escrita dificulta a defesa da empresa caso o empregado peça ressarcimento na Justiça do Trabalho.

Internet: quando a empresa é obrigada a pagar ou ajudar a pagar

A internet é o exemplo mais discutido, e também o mais mal compreendido. A empresa não é obrigada, por si só, a pagar o plano inteiro do empregado, já que esse serviço normalmente já existe em casa para uso pessoal, misturado ao uso profissional. O que se discute é a parcela adicional gerada pelo trabalho: um upgrade de velocidade pedido pela empresa, uma linha dedicada para reuniões por vídeo, ou o consumo extra de dados em quem trabalha por celular.

Quando a empresa exige um padrão técnico específico de conexão, esse custo vira “condição de trabalho” e deve estar previsto no acordo de teletrabalho. Sem essa exigência formal, fica mais difícil sustentar o pedido de reembolso integral.

Energia elétrica: como separar o gasto pessoal do gasto profissional

Aqui o raciocínio é parecido. A conta de luz da casa já existiria de qualquer forma. O que pode gerar direito a ressarcimento é o acréscimo real causado pelo home office: notebook e monitores ligados por horas, ar-condicionado durante o expediente, iluminação adicional.

Na prática, é quase impossível calcular esse valor com precisão, e a Justiça do Trabalho normalmente não exige isso do empregado. Por isso, a solução mais usada — e mais segura para os dois lados — é pagar um valor fixo mensal a título de ajuda de custo, sem precisar comprovar cada centavo gasto.

Estrutura física: mesa, cadeira, notebook e equipamentos

Diferente da internet e da energia, a estrutura física costuma gerar menos dúvida: se o trabalho exige computador, mouse, teclado ou qualquer ferramenta específica, é razoável entender que esse equipamento é de responsabilidade da empresa, por analogia direta com o que já acontece dentro do escritório — ninguém espera que o empregado leve seu próprio notebook de casa para o trabalho presencial.

Mesa e cadeira adequadas entram numa zona mais discutida, mas ganham peso quando relacionadas à saúde do trabalhador. A empresa tem o dever de orientar o empregado sobre postura e ergonomia mesmo no ambiente doméstico, e recomendar ou custear mobiliário minimamente adequado reduz o risco de discussões futuras sobre dores, lesões ou afastamentos ligados à ergonomia do posto de trabalho em casa.

O que pode (e deve) ser definido no contrato ou aditivo de teletrabalho

A lei deixa margem ampla de negociação entre empresa e empregado, desde que tudo fique registrado por escrito. Os pontos que normalmente precisam constar são:

Seu caso envolve uma situação semelhante?

Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.

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  • Quais dias ou percentual da jornada será presencial e quais serão remotos;
  • Quem fornece o equipamento de trabalho (notebook, monitor, headset, cadeira);
  • Se haverá ajuda de custo fixa mensal ou reembolso mediante comprovante;
  • Como funciona a manutenção do equipamento em caso de defeito;
  • O que acontece com o equipamento se o contrato terminar;
  • Regras de horário de trabalho e de direito à desconexão fora do expediente.

Quanto mais detalhado esse documento, menor o espaço para discussão futura — tanto para a empresa quanto para o empregado.

Ajuda de custo fixa ou reembolso por comprovante: qual modelo é mais seguro

Existem, na prática, dois modelos principais. O primeiro é pagar um valor fixo mensal, previamente combinado, para cobrir os gastos genéricos de internet e energia — mais simples de administrar, mas precisa ser razoável e proporcional ao cargo. O segundo é o reembolso mediante apresentação de comprovante, mais preciso, porém mais burocrático.

Empresas maiores tendem a preferir o valor fixo, pela facilidade operacional. Já em situações com equipamentos caros ou consumo variável, o reembolso por comprovante costuma refletir melhor a realidade.

Esse valor pago pela empresa conta como salário?

Em regra, não. Quando o pagamento tem finalidade clara de repor uma despesa do trabalho — e não de remunerar o empregado por seu trabalho —, ele não é tratado como salário. Na prática, isso quer dizer que, sendo genuinamente uma ajuda de custo ligada ao home office, esse valor tende a não se somar ao salário para cálculo de férias, décimo terceiro ou FGTS.

O ponto de atenção é a coerência: se o valor for muito alto perto do próprio salário, pago todo mês sem qualquer relação com o cargo, ou usado como forma de reduzir artificialmente a remuneração formal, a empresa corre o risco de a Justiça do Trabalho reclassificar esse pagamento como salário disfarçado, com todos os reflexos que isso gera.

Home office híbrido x home office integral: o que muda na prática

A diferença prática está no volume de despesas discutidas. No home office integral, o empregado consome internet, energia e estrutura em casa o mês inteiro, o que aumenta o peso do debate. No híbrido, parte dessas despesas já é absorvida pela empresa nos dias presenciais, o que costuma reduzir os valores de ajuda de custo. O regime jurídico, porém, é o mesmo — muda apenas a proporção.

Riscos para a empresa que não regulamenta o home office híbrido

Empresas que liberam o home office informalmente, sem acordo escrito, tendem a ter dificuldade em duas frentes: a discussão sobre reembolso de despesas, e o controle de jornada, já que sem regras claras é mais fácil surgir disputa sobre horas extras e disponibilidade fora do expediente.

Formalizar o home office híbrido não é burocracia desnecessária — é a principal ferramenta de proteção da empresa nesse tipo de discussão.

Passo a passo para implementar uma política de reembolso segura

  1. Mapear quais funções da empresa realmente vão operar em regime híbrido;
  2. Definir se o modelo será de ajuda de custo fixa ou reembolso por comprovante;
  3. Redigir um aditivo contratual claro, assinado por cada empregado nesse regime;
  4. Deixar por escrito quem fornece e mantém os equipamentos de trabalho;
  5. Orientar formalmente sobre ergonomia e postura no ambiente doméstico;
  6. Revisar a política periodicamente, ajustando valores conforme a realidade de custos.

Comparativo rápido: quem normalmente arca com cada despesa

Item Reembolso é automático? O que costuma decidir
Internet básica já existente em casa Não Só se a empresa exigir padrão técnico específico
Energia elétrica Não de forma exata Costuma virar ajuda de custo fixa mensal
Notebook e equipamentos de trabalho Em geral sim Analogia com o que já é fornecido no escritório
Mesa e cadeira ergonômica Depende do acordo Peso maior quando ligado à saúde do empregado

Um ponto que costuma gerar dúvida é a relação entre teletrabalho e o controle da jornada — assunto tratado com mais profundidade em teletrabalho e controle de jornada. Empresas com empregados atuando fora do país também precisam de cuidados adicionais, explicados em home office no exterior. Já quando o home office envolve acesso a e-mails e sistemas corporativos, vale entender os limites de monitoramento explicados em monitoramento de e-mails e chat interno. E como o home office também envolve dados pessoais do empregado, é útil revisar as obrigações descritas em LGPD no RH.

Perguntas frequentes

A empresa pode simplesmente decidir não pagar nada pelo home office híbrido?

Pode tentar, mas corre risco. Se o empregado provar gasto extra real e necessário para o trabalho, e não houver acordo escrito tratando do tema, a tendência é a Justiça do Trabalho entender que a empresa deve arcar com o essencial, já que o risco do negócio é dela, não do empregado.

Existe um valor mínimo obrigatório de ajuda de custo para home office?

Não existe uma tabela legal com valor fixo. O que se espera é razoabilidade: o valor deve guardar relação com o gasto real estimado, considerando o cargo e a intensidade do uso de internet, energia e equipamentos.

O empregado pode recusar o home office híbrido se a empresa não oferecer reembolso?

Depende do que estiver no contrato original. Se a mudança para o regime híbrido representa alteração relevante das condições de trabalho sem contrapartida, o empregado pode questionar a mudança, principalmente se ela gerar prejuízo financeiro comprovado.

A ajuda de custo para home office precisa constar no contracheque?

É recomendável que apareça de forma destacada, identificada como ressarcimento de despesa e não como remuneração, justamente para evitar confusão futura sobre a natureza do valor.

Empresas pequenas também precisam formalizar isso por escrito?

Sim. O tamanho da empresa não muda a exigência legal de formalização do teletrabalho nem afasta o risco de questionamento sobre despesas não combinadas previamente.

O que acontece se o empregado usar o valor da ajuda de custo para outra finalidade?

Isso não retira o direito ao pagamento nem gera, por si só, penalidade automática, mas reforça a importância de a empresa definir por escrito qual é a finalidade declarada do valor pago.

Conclusão: formalizar é o que protege empresa e empregado

Não existe uma resposta única e automática sobre reembolso de despesas no home office híbrido, porque a lei propositalmente deixou esse espaço para negociação entre as partes. O que existe é uma linha clara: gastos indispensáveis para o trabalho tendem a ser vistos como responsabilidade da empresa, especialmente quando não há qualquer acordo tratando do assunto.

Por isso, o caminho mais seguro para a empresa não é discutir valor por valor depois que o problema aparece, e sim formalizar previamente, por escrito, como funciona o reembolso de internet, energia e estrutura antes de colocar o regime híbrido em prática.

Fontes oficiais consultadas

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Seu caso envolve uma situação semelhante?

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Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

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Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

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