PT EN ES ZH

STJ rejeita laudo feito por inteligência artificial como prova em processo criminal

Compartilhe este post

Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 5 min · Atualizado em 10/09/2026

O Superior Tribunal de Justiça determinou a exclusão, de uma ação penal, de um relatório produzido por ferramentas de inteligência artificial generativa que havia sido usado para tentar contrariar uma perícia oficial. Para a Quinta Turma, sistemas de IA generativa podem produzir respostas com aparência de verdade mesmo quando estão erradas, e por isso não têm confiabilidade reconhecida para funcionar como prova técnica em um processo.

O que aconteceu

O caso envolvia uma ação penal por injúria racial, com um vice-prefeito e um segurança de time de futebol entre os envolvidos. A perícia oficial de criminalística analisou o áudio do caso e não identificou, nele, a palavra ofensiva que a acusação alegava ter sido dita. Diante desse resultado, investigadores anexaram aos autos um relatório produzido com ferramentas de inteligência artificial generativa, que chegava à conclusão oposta da perícia oficial.

O que a Quinta Turma decidiu

No HC 1.059.475/SP, julgado em 7 de abril de 2026, a Quinta Turma do STJ determinou que esse relatório de IA fosse retirado dos autos. A fundamentação foi direta: ferramentas de inteligência artificial generativa funcionam por inferência estatística, chutando a resposta mais provável com base em padrões — o que pode gerar informações imprecisas ou até fabricadas, mas apresentadas com total aparência de certeza. Isso é bem diferente de uma perícia técnica oficial, feita por profissional habilitado e com metodologia reconhecida.

Seu caso envolve uma situação semelhante?

Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.

Entrar em contato pelo WhatsApp

Por isso, para a Turma, um relatório de IA não pode substituir nem contrariar uma perícia oficial sem alguma validação técnica própria e independente. É o primeiro precedente claro do STJ tratando especificamente da confiabilidade de laudos gerados por inteligência artificial generativa como meio de prova.

O que isso muda na prática

A decisão não fecha a porta para o uso de inteligência artificial em processos — ela apenas deixa claro que uma resposta de IA generativa, sozinha, não tem o peso de uma perícia técnica. Quem quiser usar uma ferramenta desse tipo como argumento em um processo vai precisar, também, de validação por um profissional habilitado na área específica, sob pena de o material ser descartado como neste caso.

O tema tem tudo a ver com outra discussão que já tratamos aqui, sobre como provar que uma gravação de voz feita com inteligência artificial não é real: em ambos os casos, o ponto central é que a IA pode enganar, produzindo conteúdo — ou conclusões — que parecem verdadeiros sem serem confiáveis. O mesmo cuidado vale para quem sofre com conteúdo difamatório gerado por IA generativa: a origem automatizada do erro não isenta ninguém de responder por ele.

Perguntas frequentes

Um relatório feito com ChatGPT ou ferramenta parecida pode ser usado como prova em processo?

Pode ser apresentado, mas dificilmente terá o mesmo peso de uma perícia técnica oficial, sobretudo se contrariar uma perícia já realizada — a menos que venha acompanhado de validação por profissional habilitado.

Por que a IA generativa é considerada pouco confiável para esse tipo de análise?

Porque ela funciona prevendo a resposta estatisticamente mais provável, não confirmando um fato com metodologia pericial — o que pode produzir conclusões erradas com aparência de certeza.

Fontes oficiais consultadas

Artigos relacionados

Veja também nosso conteúdo completo sobre jurisprudência comentada.

Seu caso envolve uma situação semelhante?

Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.

Entrar em contato pelo WhatsApp

Leia também

Sobre o autor

Phelipe Cardoso, advogado do PHC Advogados - Experiencia, Estrategia, Compromisso
Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reunião no escritório

Siga @phelipecardosoadv no Instagram →

Phelipe Cardoso é advogado e fundador do PHC Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos de comunicação, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.


Entrevistas, artigos e análises jurídicas em veículos de comunicação.

Phelipe Cardoso durante entrevista ao MGTV, da TV Globo
TV Globo · MGTVEntrevista sobre denúncia de racismo durante abordagem policial21 de agosto de 2020
Phelipe Cardoso durante participação no Hora 1, da TV Globo
TV Globo · Hora 1Participação no Hora 18 de fevereiro de 2022
Phelipe Cardoso durante entrevista ao Itatiaia Agro
Rádio Itatiaia · Itatiaia AgroDue diligence e segurança jurídica na compra de terrasVídeo publicado em 29/01/2025Assistir à entrevista →
Phelipe Cardoso durante entrevista ao Jornal Band Minas
Band MinasCrise da 123Milhas e multiplicação de processos judiciais15 de setembro de 2023
Veículos de comunicação com registros de participações ou publicações de Phelipe Cardoso
Precisa de orientação sobre o seu caso?Fale com o escritório e receba orientação jurídica personalizada.
FALE AGORA COM UM ADVOGADO →

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do seu caso por um advogado.

Se inscreva em nossa Newslatter

Fique atualizado e por dentro de tudo que acontece no direito

Outras postagens

Dívida da construção pode levar à penhora do próprio imóvel de família?

A proteção do bem de família não impede, em qualquer situação, a penhora do imóvel usado como residência. Uma das exceções previstas em lei alcança a cobrança relacionada ao financiamento ou à construção do próprio imóvel. Por isso, quando uma empreiteira ou construtor busca penhorar a casa para receber valores da obra, a discussão não

Contrato de convivência assinado depois pode retroagir para mudar o regime de bens?

O contrato de convivência permite organizar os efeitos patrimoniais da união estável. O problema surge quando ele é assinado depois de anos e tenta estabelecer separação de bens desde o início. Reconhecer a data de início do vínculo é diferente de alterar retroativamente o regime que incidiu sobre o patrimônio já adquirido. Por que a

Scroll to Top
Rolar para cima