PT EN ES ZH

STF define os critérios para cobrir tratamento fora do rol da ANS

Compartilhe este post

Por Phelipe Pereira Cardoso — advogado e sócio-fundador do PHC Advogados, na Savassi, em Belo Horizonte/MG.
Tempo de leitura: 6 min · Atualizado em 04/09/2026

O Supremo Tribunal Federal decidiu que um tratamento fora da lista de procedimentos obrigatórios da ANS pode, sim, ter cobertura exigida do plano de saúde — mas só quando cinco condições estiverem reunidas ao mesmo tempo: prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa da ANS sobre aquele item, inexistência de alternativa já coberta que resolva o problema, comprovação científica séria de que o tratamento funciona, e registro do produto na Anvisa.

Por que o STF entrou nesse debate

Durante anos, planos de saúde negavam qualquer tratamento que não estivesse na lista oficial da ANS, alegando que essa lista era fechada. A Justiça passou a derrubar boa parte dessas negativas, entendendo que a lista serve como referência mínima, não como teto. Diante da insegurança gerada por decisões divergentes, uma lei federal de 2022 tentou equilibrar os dois lados: manteve a lista como regra, mas abriu exceções específicas. Uma ação levada ao Supremo questionava se essa lei era válida. O tribunal confirmou que sim — e aproveitou para detalhar, com mais precisão do que a própria lei, quando exatamente a exceção se aplica.

Os cinco critérios que abrem a porta da cobertura

Para que o plano seja obrigado a cobrir um tratamento fora da lista, o Supremo exige que todos os requisitos abaixo estejam presentes ao mesmo tempo — não bastam alguns deles isoladamente:

  • Prescrição feita por médico ou dentista habilitado, indicando especificamente aquele tratamento;
  • A ANS ainda não ter analisado e recusado formalmente a inclusão do procedimento na lista, ou o pedido de inclusão estar em andamento;
  • Não existir, dentro da própria lista, outro tratamento já coberto que resolva adequadamente o mesmo problema de saúde;
  • Existir comprovação científica séria — estudos clínicos de qualidade, não relatos isolados — de que o tratamento é eficaz e seguro para aquele caso;
  • O produto, medicamento ou dispositivo ter registro na Anvisa.

Quem já teve negada uma prótese feita por tecnologia recente, como impressão 3D, vai encontrar nesses cinco pontos o roteiro exato que a Justiça passa a cobrar para decidir esse tipo de caso.

Seu caso envolve uma situação semelhante?

Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.

Entrar em contato pelo WhatsApp

O que muda na hora de discutir isso na Justiça

O Supremo também deixou recomendações para quem vai julgar esses casos: consultar um núcleo técnico de apoio (formado por médicos que assessoram os juízes) antes de decidir, exigir prova de que o pedido foi feito antes diretamente à operadora, e comunicar à ANS sempre que um tratamento fora da lista for autorizado judicialmente, para que a agência avalie se ele deve entrar na lista oficial. Na prática, isso deve tornar as decisões mais uniformes e menos dependentes de qual juiz analisa o caso. Para o paciente, o caminho mais seguro continua sendo reunir prova técnica robusta — não basta o médico dizer que “é o melhor tratamento”, é preciso mostrar por que as opções já cobertas não resolvem o problema. Isso vale tanto para medicamentos quanto para tratamentos oncológicos ainda tratados pela operadora como experimentais.

Perguntas frequentes

O plano de saúde pode negar qualquer coisa que não está na lista da ANS?

Não automaticamente. Se os cinco critérios estiverem presentes, a negativa é considerada abusiva e pode ser revertida na Justiça.

Preciso de uma decisão judicial anterior parecida para conseguir a cobertura?

Não é obrigatório, mas ajuda. O que realmente pesa é a prova técnica: laudo do médico assistente, estudos científicos e a demonstração de que as alternativas já cobertas não resolvem o caso.

A decisão vale só para medicamentos ou também para cirurgias e exames?

Vale para qualquer tratamento, procedimento, órtese, prótese ou medicamento fora da lista, desde que sejam cumpridos os mesmos cinco requisitos.

O que fazer se o plano continuar recusando mesmo com laudo médico?

Vale reunir o pedido escrito à operadora, a negativa (por escrito ou print do aplicativo) e o laudo médico, e buscar orientação jurídica para avaliar uma ação com pedido de liminar, já que muitas dessas situações envolvem urgência.

Conclusão: mais previsibilidade, mas a prova continua sendo do paciente

A decisão do Supremo não fecha a porta para tratamentos fora do rol da ANS — pelo contrário, confirma que eles podem ser exigidos. O que muda é a régua: agora há um roteiro claro de cinco requisitos, o que deve reduzir decisões contraditórias entre tribunais diferentes. Para quem depende de um tratamento assim, a lição prática é a mesma de sempre: documentar tudo e reunir prova técnica de qualidade antes de entrar com a ação.

Fontes oficiais consultadas

Artigos relacionados

Veja também nosso conteúdo completo sobre jurisprudência comentada.

Seu caso envolve uma situação semelhante?

Cada caso possui particularidades e deve ser analisado individualmente. Para informações sobre análise jurídica do seu caso, entre em contato com o escritório.

Entrar em contato pelo WhatsApp

Leia também

Sobre o autor

Advogado Phelipe Pereira Cardoso, do PHC Advogados, em reuniao no escritorio

Siga @phelipecardosoadv no Instagram →

Phelipe Pereira Cardoso é advogado desde 2009 e fundador do PHC Phelipe Cardoso Advogados. Atua principalmente em Direito Civil, Empresarial e do Consumidor, com experiência em responsabilidade civil, indenizações, contratos, conflitos patrimoniais e demandas envolvendo empresas e instituições financeiras.

Ao longo de sua trajetória, concedeu entrevistas e contribuiu com análises jurídicas para veículos como TV Globo, TV Record e Rádio Itatiaia, abordando temas de interesse público e questões relevantes das relações civis e de consumo. À frente do PHC, coordena a estratégia jurídica do escritório e combina experiência prática, linguagem clara e tecnologia aplicada ao Direito para conduzir casos de forma técnica, personalizada e orientada à solução.

Precisa de orientação sobre o seu caso?

Fale com o escritório  ·  Conheça o PHC Advogados  ·  Ver outros artigos

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do seu caso por um advogado.

Se inscreva em nossa Newslatter

Fique atualizado e por dentro de tudo que acontece no direito

Outras postagens

Overbooking, Atraso de Voo e os Limites da Responsabilidade das Companhias Aéreas na Jurisprudência do STJ

O transporte aéreo de passageiros é regido por um regime de responsabilidade civil que oscila entre a proteção do consumidor e o reconhecimento de que a atividade aeronáutica está sujeita a contingências técnicas e operacionais inerentes. Duas situações ilustram bem esse equilíbrio: a venda de passagens além da capacidade da aeronave (overbooking) e o atraso

Vida em Condomínio: Deveres, Multas e Cobrança de Cotas na Jurisprudência do STJ

Viver em condomínio pressupõe um equilíbrio delicado entre a liberdade individual e o respeito à coletividade. De um lado, cada condômino tem deveres claros: pagar em dia as despesas comuns e observar as regras de boa convivência. De outro, o condomínio dispõe de instrumentos jurídicos para exigir o cumprimento desses deveres, ainda que dentro de

Scroll to Top
Rolar para cima